EMET EFATÁ · 04
Pediram que ele fosse embora
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A cidade rogou que Jesus fosse embora (Mc 5.17); quando ele voltou a Decápolis, onde o homem curado tinha contado o que ele fez, o mesmo verbo reaparece: rogaram que tocasse num surdo (Mc 7.32), e ali Jesus disse “Efatá”.Da pregação 12 · Pediram Que Ele Fosse Embora
Correntes que não seguravam
O homem morava no cemitério da região, entre túmulos cavados na rocha. A cidade já o tinha acorrentado muitas vezes, nas mãos e nos pés, e ele arrebentava tudo: "nem ainda com cadeias podia alguém prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas; e ninguém o podia domar" Mc 5.3-4. Os grilhões, πέδαι (pedai), eram os ferros dos pés. Vivia gritando, de dia e de noite, e se feria com pedras Mc 5.5.
Dois capítulos antes, Jesus tinha dito: "ninguém pode entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente" Mc 3.27. No grego, "prendê-lo" em 5.3 é δῆσαι (dēsai), o mesmo verbo de "amarrar" em 3.27. E "ninguém o podia domar" é, ao pé da letra, "ninguém tinha força" (οὐδεὶς ἴσχυεν, oudeis ischyen), da raiz de ἰσχυρός (ischyros), o "valente" de 3.27, a mesma palavra com que João Batista anunciou Jesus: "Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu" Mc 1.7. A cidade não teve força para amarrar; Jesus não usou corrente nenhuma. Falou Mc 5.8 e permitiu Mc 5.13. Ler 5.3-4 à luz de 3.27 é leitura apoiada nas palavras; Marcos não cita 3.27 aqui.
O medo veio depois da calma
Marcos não diz que a cidade teve medo do homem acorrentado. Diz que tentaram prendê-lo, muitas vezes; Lucas acrescenta que "guardavam-no preso com grilhões e cadeias" Lc 8.29. O verbo "temer" só aparece quando o veem curado: "viram o endemoninhado, o que tivera a legião, sentado, vestido, e em perfeito juízo; e temeram" Mc 5.15. "Em perfeito juízo" é σωφρονοῦντα (sōphronounta): com a cabeça no lugar. Para o homem furioso eles tinham um recurso, a corrente. Para o homem calmo ao lado de Jesus não tinham nenhum.
"Temeram", em 5.15, é ἐφοβήθησαν (ephobēthēsan), exatamente a forma usada pouco antes, no barco: "E cessou o vento, e fez-se grande bonança" Mc 4.39, e então "Encheram-se de grande temor, e diziam uns aos outros: Quem, porventura, é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?" Mc 4.41. Durante a tempestade Jesus os tinha chamado de "tímidos" Mc 4.40, outra palavra (δειλοί, deiloi). Nos dois relatos o grande medo vem depois da calma, diante de quem a fez: o mar acalmado, o homem acalmado. Os discípulos ficaram no barco perguntando quem ele era. A cidade pediu que ele fosse embora, e Lucas dá o motivo: "estavam possuídos de grande medo" Lc 8.37.
Todos rogam; um só ouve não
Em Marcos 5, todo mundo pede alguma coisa a Jesus, e a Almeida usa o mesmo verbo para todos, "rogar", como o grego (παρακαλέω, parakaleō, pedir com insistência). Os demônios rogam que não sejam mandados para fora da região Mc 5.10 e que possam entrar nos porcos Mc 5.12: "E ele lho permitiu" Mc 5.13. A cidade roga que ele saia Mc 5.17, e ele entra no barco. O homem curado roga "que o deixasse estar com ele" Mc 5.18, e é o único que ouve não: "Jesus, porém, não lho permitiu" Mc 5.19. Em português os dois "permitiu" parecem o mesmo verbo; no grego são dois (ἐπέτρεψεν e οὐκ ἀφῆκεν), com o mesmo sentido.
"Estar com ele" é a expressão do chamado dos Doze: "designou doze para que estivessem com ele, e os mandasse a pregar" Mc 3.14 (ἵνα ὦσιν μετ’ αὐτοῦ). O homem pediu a primeira metade e recebeu a segunda: foi mandado, e "começou a publicar em Decápolis" Mc 5.20. "Pregar" em 3.14 e "publicar" em 5.20 são o mesmo verbo grego, κηρύσσω (kēryssō).
Rogaram que fosse; rogaram que tocasse
Decápolis era uma região de dez cidades de língua grega, a leste e ao sul do mar da Galileia; Gerasa e Gadara estavam entre elas. Lá, "começaram a rogar-lhe que se retirasse dos seus termos" Mc 5.17. Dois capítulos depois Jesus volta: "foi por Sidom até o mar da Galiléia, passando pelas regiões de Decápolis. E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele" Mc 7.31-32. O verbo do pedido é o mesmo, παρακαλέω. E os "termos" de 5.17 e as "regiões" de 7.31 são no grego a mesma palavra, ὅρια (horia), os limites de um território; a Almeida traduz de dois jeitos. Na primeira visita pediram que ele saísse dos limites deles. Na segunda, dentro dos limites de Decápolis, pediram que ele tocasse num doente.
Foi ali que Jesus, "erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse-lhe: Efatá; isto é Abre-te" Mc 7.34 (Εφφαθα, διανοίχθητι), a palavra que dá nome a esta série. E quem viu fez o que o homem de Gerasa tinha feito: "quando mais lho proibia, tanto mais o divulgavam" Mc 7.36. "Divulgavam" é outra vez κηρύσσω. Entre os dois pedidos, Marcos deixou em Decápolis um homem contando "tudo quanto lhe fizera Jesus" Mc 5.20.
"O Senhor" e "Jesus"
Jesus mandou o homem contar "o quanto o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti" Mc 5.19. O homem saiu contando "tudo quanto lhe fizera Jesus" Mc 5.20. No grego, ὁ κύριος (ho kyrios) na ordem e ὁ Ἰησοῦς na obediência, e Marcos não corrige a troca. É o mesmo livro que abre aplicando a Jesus o "Preparai o caminho do Senhor" de Isaías Mc 1.3. O que o Senhor fez, Jesus fez. O demônio já tinha dito quem ele era: "Jesus, Filho do Deus Altíssimo" Mc 5.7.
E ele atendeu o pedido da cidade. Não discutiu, não ficou à força, não amaldiçoou ninguém: entrou no barco. Mas não deixou a cidade sem testemunha, e voltou. No filme, a cidade olha o mar onde a manada afundou e aponta para o barco; o homem de manto fica na praia e vai para casa.
A travessia de Mc 4.35-41 termina em "Chegaram então ao outro lado do mar, à terra dos gerasenos" Mc 5.1; por isso o barco chega num mar já calmo. Eles tinham saído "quando já era tarde" Mc 4.35, mas a hora da chegada não está no texto: a noite, a lua, as estrelas e os grilos são escolha do desenho, e o sol que nasce atrás das colinas também (a terra dos gerasenos fica na margem leste do lago). Os sepulcros abertos na rocha, as pedras no chão, as correntes nas mãos e os grilhões nos pés vêm de Mc 5.3-5. O filme não sintetiza grito: a agitação do homem é vento. Também não desenha demônio: o sopro que passa do homem para o monte é escolha do desenho, porque Marcos só diz que "Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos" Mc 5.13. A manada aparece com onze porcos; o texto diz "uns dois mil". Os porqueiros que fogem são de Mc 5.14. O manto no homem sentado vem de "vestido" Mc 5.15; Lucas diz que ele "havia muito tempo não vestia roupa" Lc 8.27. As correntes partidas no chão, de dia, são escolha do desenho. O mapa é esquemático, fora de escala; da viagem de Mc 7.31, que sai de Tiro e passa por Sidom, mostra só a chegada pelo norte. Os manuscritos variam entre gerasenos, gadarenos e gergesenos; o filme segue a Almeida.
Não afirma que foi o testemunho do homem que mudou Decápolis. Marcos põe os dois pedidos na mesma região, com o mesmo verbo, e entre eles o homem pregando; a ligação de causa é inferência provável, e o texto não a declara.
Não afirma que a cidade pediu por causa dos porcos. O texto diz que temeram Mc 5.15 e que ouviram "acerca dos porcos" antes de pedir Mc 5.16-17; Lucas dá o motivo com todas as letras: medo Lc 8.37. Que o prejuízo pesou na conta é leitura provável, e já está em Calvino: ele põe a causa principal no medo, como Lucas, mas admite que o medo vinha em parte da perda dos porcos. A frase "a cidade preferiu os porcos" é aplicação da pregação, não citação: o filme põe o homem curado de um lado e o mar da manada do outro, e deixa a conta para quem assiste.
Não afirma que todo sofrimento seja possessão. O texto trata de uma possessão declarada, com diálogo registrado. Ansiedade, depressão e doença mental não são o assunto, e tratá-las como demônio fere quem precisa de cuidado.
Não afirma que Jesus desistiu da cidade. Ele saiu a pedido, deixou lá o homem com uma tarefa e voltou à região.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. No mapa, a linha terracota é o caminho dele.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 04 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em