EMET EFATÁ · 05
Ele não perde o que salvou
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Em Zacarias 3 a acusação contra o sumo sacerdote é verdadeira (“sujos”, no hebraico, é da raiz de “excremento”) e ele não diz uma palavra, mas a sentença não alega a inocência dele: apela à escolha que Deus fez antes, “o Senhor, que escolheu Jerusalém”.Da pregação 38 · Ele Não Perde o Que Salvou
Um tribunal, e o acusador no lugar dele
Zacarias, profeta do tempo em que os judeus voltavam do exílio na Babilônia, conta uma visão. Diante do anjo do Senhor está Josué, o sumo sacerdote, o homem que representava o povo inteiro diante de Deus; e ao lado dele, alguém que veio acusá-lo: "Ele me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do Senhor, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor" Zc 3.1. No hebraico o nome e o verbo têm a mesma raiz: הַשָּׂטָן (hassatan, com artigo, "o acusador") está ali לְשִׂטְנוֹ (lesitno), "para acusá-lo". A mão direita do réu é o lugar em que o Salmo 109 também põe quem acusa: "Põe sobre ele um ímpio, e esteja à sua direita um acusador" Sl 109.6. O Novo Testamento dá a ele o mesmo ofício: "o acusador de nossos irmãos, o qual diante do nosso Deus os acusava dia e noite" Ap 12.10.
A acusação era verdadeira
O texto não diz que o acusador mentiu. Diz como Josué estava vestido: "Ora Josué, vestido de trajes sujos, estava em pé diante do anjo" Zc 3.3. O homem cujas roupas deviam ser "vestes sagradas... para glória e ornamento" Êx 28.2 está diante de Deus imundo.
"Sujos" é צוֹאִים (tso'im). O adjetivo só aparece aqui, em 3.3 e 3.4. A raiz é a de צֹאָה (tso'ah), que a Almeida traduz "sujidade" quando fala de vômito (Is 28.8) e "excremento" no cerco de Jerusalém (2Rs 18.27; Is 36.12); a forma vizinha tse'ah é o excremento de Dt 23.13 e Ez 4.12. A Escritura usa a mesma palavra para o pecado: "Quando o Senhor tiver lavado a imundícia das filhas de Sião" Is 4.4; "Há gente que é pura aos seus olhos, e contudo nunca foi lavada da sua imundícia" Pv 30.12. David Baron, em 1918, a chamou de a expressão mais forte do hebraico para a sujeira mais repugnante. O filme desenha as manchas na túnica e põe a palavra sobre elas.
O réu não diz uma palavra
Em dez versículos Josué não fala. Não se explica, não promete, não pede. Nem o acusador tem fala registrada. Quem fala é o Senhor (ou o anjo) e o próprio profeta, que é quem pede a mitra: "Também disse eu: Ponham-lhe sobre a cabeça uma mitra limpa" Zc 3.5. No filme, depois da palavra hebraica, a música para e a galeria fica imóvel: o silêncio de Josué é parte do argumento do capítulo, porque ninguém contesta uma acusação que procede.
A sentença apela a uma escolha anterior
A resposta não discute a sujeira: "Mas o anjo do Senhor disse a Satanás: Que o Senhor te repreenda, ó Satanás; sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda! Não é este um tição tirado do fogo?" Zc 3.2. Duas razões, e nenhuma é a inocência de Josué. A primeira é uma escolha feita antes do processo: הַבֹּחֵר בִּירוּשָׁלַיִם (habocher birushalayim), "o que escolheu Jerusalém"; Josué está ali pelo povo que Deus escolheu. A segunda é uma imagem: אוּד מֻצָּל מֵאֵשׁ ('ud mutsal me'esh), um pedaço de lenha já em brasa, arrancado do fogo antes de virar cinza. Mutsal vem de natsal, o verbo de livrar, o mesmo de "desci para o livrar da mão dos egípcios" Êx 3.8. Amós tinha usado a mesma expressão para Israel: "ficastes sendo como um tição arrebatado do incêndio" Am 4.11.
O fogo, para Josué, tinha nome. Ele é "Josué, o sumo sacerdote, filho de Jeozadaque" Ag 1.1, e "Jeozadaque foi levado cativo quando o Senhor levou em cativeiro Judá e Jerusalém por intermédio de Nabucodonosor" 1Cr 6.15. O avô, Seraías (1Cr 6.14), era o sumo sacerdote que o rei da Babilônia "feriu e matou em Ribla" 2Rs 25.18-21. O neto voltou. A fórmula da repreensão reaparece no Novo Testamento na boca do arcanjo Miguel diante do Diabo: "O Senhor te repreenda" Jd 1.9.
A acusação não foi refutada; a roupa foi trocada
Deus não responde ao acusador com uma defesa. Manda tirar a roupa: "Tirai-lhe estes trajes sujos. E a Josué disse: Eis que tenho feito com que passe de ti a tua iniqüidade, e te vestirei de trajes festivos" Zc 3.4. No hebraico a ordem e a promessa usam a mesma preposição, מֵעָלָיו (me'alav), "de cima dele", para a roupa, e מֵעָלֶיךָ (me'aleikha), "de cima de ti", para a culpa: a iniqüidade sai de Josué do jeito que sai a roupa. "Trajes festivos" é מַחֲלָצוֹת (machalatsot), palavra que só volta em "os vestidos de festa" Is 3.22. E a mitra é tsanif tahor: tahor é o "limpo" das leis de pureza, e tsanif é da raiz de mitsnefet, a "mitra" do sumo sacerdote em Êx 28.4. Josué fica de novo vestido de sacerdote, e não disse nada. Isaías cantou a mesma troca: "porque me vestiu de vestes de salvação, cobriu-me com o manto de justiça" Is 61.10.
Onde Cristo entra
No próprio capítulo, logo depois da troca de roupa, Deus diz a Josué e aos sacerdotes que eles são sinal de alguém que virá: "eis que eu farei vir o meu servo, o Renovo" Zc 3.8, e promete: "tirarei a iniqüidade desta terra num só dia" Zc 3.9. "Renovo" (צֶמַח, tsemach) quer dizer broto, o que brota; é o nome do descendente de Davi prometido em "levantarei a Davi um Renovo justo" Jr 23.5 (e Jr 33.15, Zc 6.12). O Targum, a tradução aramaica antiga, já lia ali "meu servo, o Messias". Que o "um só dia" seja o dia da cruz é leitura cristã, apoiada em "Pois com uma só oferta tem aperfeiçoado para sempre os que estão sendo santificados" Hb 10.14; é inferência.
Paulo põe a mesma cena em forma de pergunta: "Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós" Rm 8.33-34. "Intentará acusação" é ἐγκαλέσει (enkalései), o verbo de abrir processo. Paulo não nega que haja o que acusar. Diz que o juiz já declarou justo e que quem poderia condenar morreu pelo réu e fala a favor dele, como em "vive sempre para interceder por eles" Hb 7.25 e "temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" 1Jo 2.1. No fim do filme Jesus está de pé ao lado de Josué, e o acusador vai embora sem dizer mais nada.
Zacarias descreve um tribunal pelas pessoas (o acusador, o réu, quem julga), não pelo lugar. As colunas, o estrado de três degraus, o frontão e as lamparinas são escolha do desenho. Os servidores vêm do texto: o anjo "ordenou aos que estavam diante dele" Zc 3.4 que tirassem a roupa, e "Puseram-lhe, pois, sobre a cabeça uma mitra limpa, e vestiram-no" Zc 3.5; no filme um deles faz tudo e o outro olha do degrau. A galeria ao fundo, que murmura e depois se cala, é escolha apoiada na promessa "te darei lugar entre os que estão aqui" Zc 3.7: havia outros presentes. O anjo não tem asas porque o texto não o descreve.
O tição é a única coisa em terracota além de Jesus, porque carrega o ponto: é o que foi arrancado do fogo. O capítulo não narra a saída do acusador: depois da repreensão ele não fala nem aparece mais. O filme o faz sair por trás da coluna, o que é escolha do desenho, lembrando "já foi lançado fora o acusador de nossos irmãos" Ap 12.10. Jesus não aparece em Zacarias; entra no fim com Romanos 8.34, enquanto o anjo continua no estrado, para que as duas figuras não se confundam.
Não afirma que o anjo do Senhor seja Jesus. É leitura antiga, e Calvino, no comentário a Zacarias, diz que o anjo diante de quem Josué estava é Cristo, chamado anjo e também Senhor; muitos intérpretes o seguem e outros não. O texto não diz, e o próprio 3.2 tem uma variante: o hebraico traz "e disse o Senhor a Satanás"; a Almeida segue a versão siríaca, "o anjo do Senhor disse". Por isso o filme deixa o anjo como figura à parte e só mostra Jesus com o versículo do Novo Testamento.
Não afirma que Romanos 8 cite Zacarias 3. O texto que os comentaristas mais apontam por trás de Rm 8.33-34 é Isaías: "Perto está o que me justifica; quem contenderá comigo?... quem há que me condene?" Is 50.8-9. A ligação com Zacarias é de cena (o tribunal, o acusador, os escolhidos). Em português as palavras coincidem, "escolheu" e "escolhidos"; em grego também, porque a Septuaginta traduz 3.2 com o mesmo verbo que dá o eklektōn de Paulo. Ler uma passagem à luz da outra é inferência.
Não afirma que Zacarias 3, sozinho, prove que a salvação não se perde. O título vem da pregação 38, que se apoia em "Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu" Jo 6.39 e em Romanos 8. Zacarias mostra sobre o que o réu fica de pé: a escolha e o ato de Deus, e não o desempenho dele. Os textos de advertência existem, como Hb 6.4-6, e cristãos sérios os leem de modos diferentes; a pregação 38 trata deles.
Não afirma licença para continuar sujo. Logo depois da troca vem a ordem: "Se andares nos meus caminhos, e se observares as minhas ordenanças, também tu julgarás a minha casa" Zc 3.7. A roupa limpa vem antes da ordem e sem condição; a ordem é para quem já está vestido. Paulo responde do mesmo jeito: "Permaneceremos no pecado, para que abunde a graça? De modo nenhum" Rm 6.1-2.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 05 · Elaborado por Eric Rocha
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