EMET EFATÁ 12 · LUCAS 15.25-32 · PROVÉRBIOS 14.10
EMET EFATÁ · 12
Nunca me deste um cabrito
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O filho mais velho reclama que nunca ganhou um cabrito (no grego, ériphon, o animal pequeno) e, na mesma queixa, chama o irmão e os bens de “teus”, do pai: “este teu filho, que desperdiçou os teus bens” (Lucas 15.29-30). O pai devolve os dois com a mesma palavra: “tudo o que é meu é teu… este teu irmão” (15.31-32).Da pregação 81 · Nunca Me Deste um Cabrito
O filho que ficou à porta
Jesus conta a história de um pai com dois filhos. O mais novo pede a sua parte da herança, vai embora, gasta tudo e volta; o pai faz festa e manda matar o bezerro engordado Lc 15.23. O mais velho, que nunca saiu de casa, chega do campo, ouve a música e para do lado de fora: "Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele" Lc 15.28. "Instava" quer dizer insistia. O filme 06 (Perdido na casa do pai) contou a parábola inteira e o verbo com que ele descreve os anos de trabalho, douleúō, servir como escravo. Este filme fica na porta e escuta o resto da fala: o que ele pede, como chama o irmão, como chama os bens, e o que o pai responde.
Um cabrito e o bezerro cevado, na mesma queixa
"Contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado" Lc 15.29-30. "Cabrito" é ἔριφον (ériphon), filhote de cabra; a palavra aparece só mais uma vez no Novo Testamento, nos cabritos separados das ovelhas Mt 25.32. "Bezerro cevado" é σιτευτὸν μόσχον (siteutòn móschon), o bezerro alimentado com grão, engordado. O adjetivo siteutós só aparece no Novo Testamento neste capítulo, três vezes, em três bocas: o pai que manda matar o bezerro Lc 15.23, o servo que conta o que aconteceu Lc 15.27 e o filho mais velho Lc 15.30. É ele mesmo quem põe os dois animais lado a lado, na mesma frase: o pequeno que "nunca me deste" e o grande que "mataste-lhe". E o que ele queria com o cabrito era εὐφρανθῶ (euphranthô), "me regozijar", fazer festa: o mesmo verbo do pai em "comamos, e regozijemo-nos" Lc 15.23 e do narrador em "E começaram a regozijar-se" Lc 15.24. A festa que ele cobrava estava tocando a poucos passos, do outro lado da porta; ele a queria noutro lugar, "com meus amigos". Na resposta ele também não diz "pai": começa com "Eis que há tantos anos te sirvo" Lc 15.29, enquanto o mais novo abre com "Pai" Lc 15.12, Lc 15.21.
"Teu filho", "teus bens": o achado
Na queixa, o irmão e os bens ficam do lado do pai. "Este teu filho" é ὁ υἱός σου οὗτος (ho huiós sou hoûtos); "os teus bens" é σου τὸν βίον (sou tòn bíon), ao pé da letra "o teu sustento", "a tua vida". O mesmo sou, "teu", duas vezes na mesma frase Lc 15.30: o irmão é filho do pai, não irmão dele; os bens são do pai, não dele. O servo lhe tinha dito "Chegou teu irmão" Lc 15.27, ὁ ἀδελφός σου; diante do pai, "teu irmão" virou "teu filho". E a palavra bíos já tinha aparecido: quando o mais novo pediu a herança, "Repartiu-lhes, pois, os seus haveres" Lc 15.12, em grego διεῖλεν αὐτοῖς τὸν βίον, "repartiu entre eles os bens". Entre os dois. Pela Lei, o primogênito recebia "dobrada porção de tudo quanto tiver" Dt 21.17; que a partilha da parábola seguisse essa regra é o provável, e o texto não detalha. O que o texto diz basta: a parte dele já tinha sido separada. Ele reclamava de um cabrito numa casa que já era dele. O "este" também já tinha aparecido, na boca do pai: "este meu filho estava morto, e reviveu" Lc 15.24. O filho mais velho repete o "este" e troca "meu" por "teu".
O pai devolve os dois com o mesmo "teu"
"Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos… porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado" Lc 15.31-32. "Tudo o que é meu é teu" é πάντα τὰ ἐμὰ σά ἐστιν (pánta tà emà sá estin); sá é o possessivo de "tu": "teus". Os bens que ele tinha empurrado para o pai com "os teus bens" voltam para ele, todos, na mesma pessoa. "Este teu irmão" é ὁ ἀδελφός σου οὗτος (ho adelphós sou hoûtos): o mesmo sou e o mesmo hoûtos do versículo 30, com "irmão" no lugar de "filho", a palavra do servo de volta. O filho disse "teu" para se afastar dos dois; o pai diz "teu" para devolvê-los a ele. O pai não responde à conta com um cabrito; responde com "tudo". E fecha com ἔδει (édei), que a Almeida traduz "era justo" e que quer dizer "era necessário", "tinha de ser": a festa não era um capricho do pai, era o devido. Lucas usa o mesmo verbo em "Porventura não importa que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória?" Lc 24.26; ler a festa com esse peso é possível, mas é leitura: o versículo 32 não faz a ligação.
O de fora, na alegria da própria casa
"O coração conhece a sua própria amargura; e o estranho não participa da sua alegria" Pv 14.10. No hebraico: לֵב יוֹדֵעַ מָרַּת נַפְשׁוֹ וּבְשִׂמְחָתוֹ לֹא־יִתְעָרַב זָר (lev yodêa marrat nafshô, uvesimchatô lo-yit'arav zar). Marrá é amargura; zar é o de fora, o que não é da casa; yit'arav é misturar-se, tomar parte. O provérbio diz que a amargura cada um conhece por dentro, e que quem é de fora não entra na alegria. Não diz que alegria e amargura nunca moram juntas; diz que as duas são de dentro e que o de fora fica de fora. A pregação 81 lê o filho mais velho com esse versículo, e o filme também: ele carregava uma conta de anos, "há tantos anos… nunca", a amargura que o coração dele conhecia sozinho, e ficou à porta da alegria da própria casa como se fosse um zar. Essa ligação é aplicação: Provérbios não fala da parábola.
Onde Jesus entra
A parábola tem endereço. "Ora, chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles. Então ele lhes propôs esta parábola" Lc 15.1-3. Publicanos eram cobradores de impostos, malvistos por todos; fariseus e escribas, os religiosos cuidadosos da época. A queixa deles começa com o mesmo "este", οὗτος, que o filho mais velho usa para o irmão, e tem o mesmo motivo: a mesa posta para quem errou. O que eles diziam como acusação é o que o pai faz na história, receber e comer junto, e é o que Jesus fazia. A alegria do pai é a de "há alegria na presença dos anjos de Deus por um só pecador que se arrepende" Lc 15.10, e à mesa de Jesus essa festa acontecia na terra. Por isso o filme termina ali: ele parte o pão e o dá a um dos que chegaram, e os que murmuravam ficam do lado de fora da porta. O lugar vazio ao lado dele, e o gesto para esse lugar, são escolha do desenho e leitura, não citação: a parábola, contada a quem murmurava, termina com o pai do lado de fora, insistindo.
A janela com os que dançam e as notas que sobem são "a música e as danças" de Lc 15.25. A noite, a lua, as estrelas e os grilos são escolha do desenho: o texto diz só que ele voltava do campo. O rebanho de cabritos perto da casa também é escolha; o texto não fala de cabras ali, e o desenho as põe para que se veja o que Lc 15.12 e Lc 15.31 dizem, que aquilo tudo já era dele. O cabrito que levanta a cabeça quando ele diz "nunca me deste um cabrito" é detalhe do desenho. Não há balido: o cabrito tem um sino pequeno e agudo, e o bezerro, um sino grave. O texto não menciona porta; diz que o pai "saiu" Lc 15.28. A porta que ele abre, com a luz em terracota, é escolha: é a porta que a parábola deixa aberta, e o único traço terracota da cena fora de Jesus. O cabrito e o bezerro lado a lado mostram a diferença entre um filhote de cabra e um bezerro engordado com grão; o arco sobre a casa, o campo e o rebanho em "tudo o que é meu é teu" é desenho, e o risco sobre "FILHO" também. O servo que explica a festa Lc 15.26-27 ficou fora do filme. Na mesa do fim, que Jesus recebia pecadores e comia com eles está em Lc 15.2; a sala, o pão, o copo, a lamparina na prateleira e o lugar vazio são escolha do desenho.
Não afirma que tristeza seja amargura. "Jesus chorou" Jo 11.35, e "o choro pode durar uma noite; pela manhã, porém, vem o cântico de júbilo" Sl 30.5. Quem chora uma perda não é o filho mais velho. O filme olha a amargura que faz conta: a de quem está dentro da casa, com tudo, e mede o que não recebeu.
Não afirma que Provérbios 14.10 diga que alegria e amargura não podem morar na mesma alma. O versículo diz que as duas são de dentro e que o de fora não toma parte na alegria. Ler o filho mais velho como esse "estranho" é aplicação, feita pela pregação 81 e pelo filme.
Não afirma que o filho mais velho estivesse errado nos fatos. O pai não nega os anos de serviço nem a obediência; nega a falta: "tudo o que é meu é teu". Também não condena o amor a si mesmo, que "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" Mt 22.39 pressupõe; a pregação 81 fala de excesso de amor-próprio, o que mede a bondade do pai pelo que recebeu.
Não afirma o destino dele. A parábola termina sem dizer se ele entrou; o filme descreve a alma dele à porta, não o fim. E não afirma que o lugar vazio na mesa de Jesus seja dele: é escolha do desenho para o convite que fica aberto.
Não afirma que o bezerro cevado seja figura de Cristo. O verbo "matar" em Lc 15.23, Lc 15.27 e Lc 15.30 é thýō, o mesmo de "em que se devia imolar a páscoa" Lc 22.7, mas a parábola não faz essa ligação, e fazê-la seria alegoria.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 12 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em