EMET EFATÁ 14 · MATEUS 4.5-7 · 14.28-33
EMET EFATÁ · 14
Ele sabia nadar
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No alto do templo, o tentador cita o Salmo 91 sem a frase “para te guardarem em todos os teus caminhos” (Sl 91.11; Mt 4.6): a promessa era para quem anda no caminho, não para quem se atira do alto. E o “Se tu és Filho de Deus” do tentador só ouve resposta no mar, depois que Jesus segura Pedro: “Verdadeiramente tu és Filho de Deus” (Mt 14.33).Da pregação 83 · Ele Sabia Nadar
A frase que falta na citação
No alto do templo, o tentador propõe um pulo e cita a Bíblia para garantir o pouso: "Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito; e: eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra" Mt 4.6. O texto citado é o Salmo 91, e o salmo diz mais: "Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. Eles te susterão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra" Sl 91.11-12. Posto lado a lado, falta uma frase: "para te guardarem em todos os teus caminhos". No hebraico ela é לִשְׁמׇרְךָ בְּכׇל־דְּרָכֶיךָ (lishmorkha bekhol-derakheikha). Não é efeito de tradução. Mateus cita a versão grega do salmo (a Septuaginta, onde ele recebe o número noventa) palavra por palavra, e a única coisa que não aparece é τοῦ διαφυλάξαι σε ἐν πάσαις ταῖς ὁδοῖς σου, "para te guardar em todos os teus caminhos". No lugar dela ficou só um καί, "e", que a Almeida traduz "e:". Lucas conta a mesma cena e guarda o "que te guardem", mas também sem "em todos os teus caminhos": "Aos seus anjos ordenará a teu respeito, que te guardem; e: eles te susterão nas mãos" Lc 4.10-11. O tentador não inventou versículo. Tirou a frase que diz onde a promessa vale.
A pedra é risco de quem anda
A frase cortada fala de דֶּרֶךְ (derekh), estrada, caminho, o jeito de andar a vida. E a parte que ficou na citação continua falando de quem anda. No hebraico, o versículo 12 termina em פֶּן־תִּגֹּף בָּאֶבֶן רַגְלֶךָ (pen-tiggof ba'even raglekha), "para que não batas o teu pé numa pedra"; o grego de Mateus 4.6 também tem τὸν πόδα σου, "o teu pé", que a Almeida deixa implícito no "tropeces". Tropeçar numa pedra é acidente de pé no chão. Quem se atira de um pináculo não corre esse risco. O pedido do tentador tem outra direção: βάλε σεαυτὸν κάτω (bále seautòn kátō), "atira a ti mesmo para baixo". O verbo volta sobre quem o faz, e o único complemento é kátō, abaixo. No filme, os dois desenhos debaixo dos textos são isso: o caminho com a pedra, e a beirada com a queda.
"Não tentarás": não ponha Deus à prova
Jesus não discute o salmo. Responde com outro texto: "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus" Mt 4.7. É Deuteronômio: "Não tentareis o Senhor vosso Deus, como o tentastes em Massá" Dt 6.16. Em Massá o povo exigiu uma prova: "Está o Senhor no meio de nós, ou não?" Êx 17.7. "Tentar", aqui, não é "tentar fazer"; é pôr Deus à prova, montar a situação que o obrigue a agir para provar que está ali. O verbo grego é ἐκπειράσεις (ekpeiráseis), forma reforçada de "provar". Um pulo do pináculo faria isso. Os anjos vieram, mas depois e do modo de Deus: "Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram" Mt 4.11.
"Manda-me" e "Vem"
No mar, de noite, o barco está "açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário" Mt 14.24, e Jesus vem "andando sobre o mar" Mt 14.25. Pedro não pula. Pede: "Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas" Mt 14.28. "Manda-me" é κέλευσόν με (kéleusón me), o verbo de dar ordem. A resposta é uma palavra: "Disse-lhe ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus" Mt 14.29. "Vem" é ἐλθέ (elthé), e tem direção: para quem fala. As duas cenas começam do mesmo jeito, com "se tu és". O tentador usa o "se" para propor uma prova; Pedro, para pedir uma ordem. O pulo não tinha ninguém do outro lado. O passo na água tinha.
A mão antes da pergunta
A ordem não impediu o medo nem o afundar: "Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me" Mt 14.30. E a ordem dos gestos é esta: "Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Mt 14.31. Primeiro a mão, depois a pergunta. A diferença entre o mar e o pináculo não era o perigo; os dois eram perigosos. Era que no mar havia uma ordem, e quem deu a ordem estava ali.
"Se tu és" e "Verdadeiramente tu és"
O tentador abriu o desafio com uma condição: "Se tu és Filho de Deus" Mt 4.6 (já tinha dito o mesmo em Mt 4.3). No barco, depois da mão estendida, "E logo que subiram para o barco, o vento cessou. Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus" Mt 14.32-33. No grego são as mesmas palavras, em outra ordem: Εἰ υἱὸς εἶ τοῦ θεοῦ (ei huiòs eî toû theoû) e Ἀληθῶς θεοῦ υἱὸς εἶ (alēthôs theoû huiòs eî). O "se" virou "verdadeiramente". Até aqui, em Mateus, quem o chama de Filho de Deus é o Pai Mt 3.17, o tentador e os demônios Mt 8.29; esta é a primeira vez que os discípulos dizem isso. A prova que o tentador pedia com um pulo apareceu quando ele estendeu a mão a quem afundava. Ligar as duas frases é leitura do filme; as palavras iguais estão no texto.
Do texto vêm a "cidade santa" e o "pináculo do templo" Mt 4.5. "Pináculo" é πτερύγιον (pterýgion), "asinha", a beirada; o texto não diz qual ponto do templo era. O filme desenha a quina do muro sobre o vale, com o pórtico de colunas em cima, como Josefo descreve o lado sul, onde quem olhasse de cima para o fundo do vale sentia vertigem; isso é escolha apoiada nele, não certeza. Os pássaros voando abaixo da beirada, o pássaro pousado na quina, a gente miúda na estrada do vale, o sol e as nuvens são escolha do desenho, para mostrar a altura. O tentador é uma figura cinza como as outras, sem chifre e sem rabo: o texto não descreve a aparência dele. No mar, vêm do texto a noite ("À quarta vigília da noite", Mt 14.25, entre três e seis da manhã), o vento contrário e as ondas Mt 14.24, e o vento que cessa quando sobem para o barco Mt 14.32. Os remos vêm de Marcos: "vendo-os fatigados a remar, porque o vento lhes era contrário" Mc 6.48. A lua quase cheia é escolha com um apoio: João diz que "a páscoa, a festa dos judeus, estava próxima" Jo 6.4, e a Páscoa cai na lua cheia; mas a noite podia estar nublada. No barco estavam os doze; o filme desenha dois remando. No fim, eles se curvam e Pedro se ajoelha: "adoraram-no" é προσεκύνησαν (prosekýnēsan), o gesto de se prostrar diante de alguém. O texto diz "começando a submergir": no filme a água chega à cintura de Pedro, não o cobre. Os dois traços em terracota fora de Jesus são o sublinhado de "em todos os teus caminhos", a frase que falta, e o de "Verdadeiramente".
Não afirma que Deus só nos ponha onde vamos sobreviver. No mesmo capítulo, sob o mesmo rei, "matou à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isso agradava aos judeus, continuou, mandando prender também a Pedro" At 12.2-3, e Pedro saiu vivo. Hebreus põe os dois desfechos na mesma lista de fé: uns "escaparam ao fio da espada" Hb 11.34, e "uns foram torturados, não aceitando o seu livramento" Hb 11.35. A diferença entre o mar e o pináculo não é o tamanho do risco; é se houve ordem.
Não afirma que "Deus não dá mais do que você aguenta". O versículo que costuma ser usado assim fala de tentação a pecar e promete uma saída: "com a tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar" 1Co 10.13. Não é um teto para o sofrimento de ninguém.
Não afirma que o Salmo 91 não valha. O salmo é verdadeiro no que diz: guarda quem anda no caminho. O erro estava no recorte e no uso, e é ao uso que Jesus responde com Dt 6.16. Há quem não dê peso à frase omitida e ponha todo o erro do tentador no uso da promessa; o que é certo é que a frase falta nos dois evangelhos e que o salmo, com "caminhos" e "pé", fala de quem anda. Calvino dá peso à frase: se a expressão "em todos os teus caminhos" tem alguma força, diz ele, Satanás corrompe e mutila o sentido do profeta quando aplica a guarda dos anjos a um caminho que Deus não mandou tomar.
Não afirma que Pedro andou porque sabia nadar. Mateus não diz que ele sabia; isso vem de João, em outra noite, quando Pedro "lançou-se ao mar" a "cerca de duzentos côvados" da praia Jo 21.7-8, e do ofício dele, pescador daquele mar Mt 4.18. O título vem da pergunta que deu origem à pregação: por que andar sobre a água, se ele sabia nadar? Água não sustenta ninguém, e ele afundou mesmo assim. Saber nadar não era a base do chamado.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 14 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em