EMET EFATÁ · 15
Eles creram. Ele não confiou.
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Em João 2.23-24, “creram” e “não confiava” são no grego o mesmo verbo, pisteúō: muitos creram em Jesus quando viram os sinais, e ele não se confiou a eles, porque sabia o que havia no homem. Nos evangelhos, é o único lugar em que Jesus é o sujeito desse verbo.Da pregação 84 · Eles Creram. Ele Não Confiou.
Um verbo, duas frases
Jesus está em Jerusalém na festa da Páscoa. Muita gente vê os milagres que ele faz e passa a crer nele. Logo em seguida, João diz que ele não se confiava a essas pessoas: "Ora, estando ele em Jerusalém pela festa da páscoa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome. Mas o próprio Jesus não confiava a eles, porque os conhecia a todos, e não necessitava de que alguém lhe desse testemunho do homem, pois bem sabia o que havia no homem" Jo 2.23-25. Em português são dois verbos, "crer" e "confiar". No grego é um só, πιστεύω (pisteúō). Os muitos ἐπίστευσαν (epísteusan), creram; Jesus οὐκ ἐπίστευεν αὐτὸν αὐτοῖς (ouk epísteuen autòn autoîs), não se confiava a eles. Na segunda frase o verbo tem Jesus como sujeito e "a si mesmo" como objeto: ele não se entregava. O tempo dos verbos também difere. "Creram" está no aoristo, o tempo que registra o fato; "não se confiava" está no imperfeito, o tempo do que continua: enquanto eles criam, ele seguia sem se entregar. A Almeida escreve "não confiava a eles", sem o "se", e o leitor em português dificilmente percebe que é a mesma palavra dos dois lados.
Nos evangelhos, só aqui
Em Mateus, Marcos, Lucas e João, o verbo pisteúō aparece mais de cento e trinta vezes. Em só uma delas o sujeito é o próprio Jesus: João 2.24. E a única vez em que se diz o que ele faz com esse verbo é para dizer o que ele não fazia. Três versículos têm o mesmo verbo em sequência: os discípulos "creram na Escritura, e na palavra que Jesus havia dito" Jo 2.22, os muitos "creram no seu nome" Jo 2.23, e ele "não confiava a eles" Jo 2.24. O sentido de "confiar algo a alguém" com esse verbo está na boca do próprio Jesus em Lucas: "Se, pois, nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?" Lc 16.11. "Confiará" é πιστεύσει (pisteúsei), o mesmo verbo, agora com o sentido de entregar alguma coisa nas mãos de alguém.
"Vendo os sinais"
A fé dos muitos veio do que viram: θεωροῦντες αὐτοῦ τὰ σημεῖα (theōroûntes autoû tà sēmeîa), "vendo os seus sinais". João não diz que essa fé era falsa. "Crer no seu nome" é a mesma expressão do prólogo: "a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" Jo 1.12. Mas o mesmo evangelho mostra que crer ao ver milagres podia parar ali: "Se não virdes sinais e prodígios, de modo algum crereis" Jo 4.48; e aos que tinham acabado de crer, Jesus pôs uma condição: "Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos" Jo 8.31. A frase seguinte de João 2 é "Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos" Jo 3.1, e ele chega dizendo "ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele" Jo 3.2. No grego, 2.25 termina em ἐν τῷ ἀνθρώπῳ, "no homem", e 3.1 começa com ἦν δὲ ἄνθρωπος, "havia um homem". Ler Nicodemos como um dos "muitos" que creram pelos sinais é inferência; a palavra repetida e os mesmos sinais estão no texto.
"Sabia o que havia no homem"
O motivo dado é conhecimento, não suspeita: αὐτὸς γὰρ ἐγίνωσκεν τί ἦν ἐν τῷ ἀνθρώπῳ (autòs gàr egínōsken tí ēn en tō anthrṓpō), "ele mesmo sabia o que havia no homem". Ele não precisava que alguém lhe contasse. O filme mostra isso num gesto: os que creram vão atrás dele com as mãos estendidas; ele para, olha para eles, deixa as mãos baixas e segue. O texto não descreve gesto nenhum. Diz o que ele não fazia, e não diz que os mandou embora nem que os repreendeu.
Os amigos, na noite da negação
O filme termina na última noite, à mesa. Ali Jesus diz: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer" Jo 15.15. A diferença entre servo e amigo, nesse versículo, é saber: ao amigo ele conta. "Dei a conhecer" é ἐγνώρισα (egnṓrisa), da mesma família de ginṓskō, o "conhecia" de 2.24-25. Naquela mesma noite Judas já tinha saído Jo 13.30, e Jesus já tinha dito a Pedro, que prometia dar a vida por ele: "Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo até que me tenhas negado três vezes" Jo 13.38. Ele sabia o que havia em Pedro, e chamou os onze de amigos. Dois versículos antes, disse: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos" Jo 15.13, com a mesma expressão grega da promessa de Pedro em Jo 13.37: pôr (títhēmi) a vida (psychḗ) por (hypér) alguém. João não explica a diferença entre a multidão de João 2 e a mesa de João 15, e o filme não diz que os onze fossem melhores. O que o texto dá, em 15.14-16, são duas coisas: a escolha dele, "Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós" Jo 15.16, e a obediência como marca de quem é amigo, "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" Jo 15.14. Depois da negação, Pedro apela para o mesmo conhecimento de 2.25: "Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas" Jo 21.17; o segundo "tu sabes" é γινώσκεις (ginṓskeis), o verbo do "conhecia" de 2.24-25, e a resposta de Jesus é entregar a Pedro as ovelhas dele. Que João tenha escrito essas passagens para responder a 2.24 é inferência; os verbos estão lá.
Do texto vêm Jerusalém, a Páscoa e o templo Jo 2.13, Jo 2.23. As pombas no pátio vêm de Jo 2.14, onde se vendiam "bois, ovelhas e pombas" no templo. O peregrino com os cordeiros vem do costume da festa: "tomará cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família" Ex 12.3; o homem e o caminho são escolha do desenho. João não diz quais foram os sinais daquela Páscoa. O filme desenha dois que o próprio João conta mais adiante, também em Jerusalém: um homem que não andava Jo 5.1-9 e um cego Jo 9.1-7. Não são aqueles episódios; são escolha para mostrar o que "sinais" quer dizer. A muleta, o cajado, a corda de bandeirolas, o sol da tarde, as nuvens, os pássaros e a oliveira são escolha do desenho. Os curados ficam na mesma cor da multidão porque são dos "muitos". Na mesa, a noite vem do texto: "E era noite" Jo 13.30, "Enquanto ceavam" Jo 13.2. A lua quase cheia tem apoio: aquilo foi "antes da festa da páscoa" Jo 13.1, e a Páscoa cai na lua cheia. A janela, as lamparinas, o pão e o copo são escolha. À mesa estavam os onze; o filme desenha quatro. No fim, ele abre as duas mãos para os dois lados da mesa; o texto não descreve esse gesto, e o filme não mostra quem estava ao lado dele. O único traço em terracota fora de Jesus é o arco que liga as duas formas do mesmo verbo.
Não afirma que a fé dos que creram fosse falsa. O texto registra que creram "no seu nome" e não julga essa fé; registra o que Jesus fazia, e por quê.
Não afirma que o Espírito ou a salvação venham com o tempo, como prêmio de quem prova fidelidade. O Espírito é dado quando se crê: "tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa" Ef 1.13; "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" Rm 8.9. O que João 2.24 diz que Jesus não entregava é ele mesmo, a confiança de quem se abre com alguém.
Não afirma que Deus segure o que tem por medo de ser traído. Jesus deu a Pedro "as chaves do reino dos céus" Mt 16.19 antes da negação; deixou a bolsa com Judas Jo 12.6; e "quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós" Rm 5.8. O próprio filme termina assim: ele sabia que Pedro o negaria, e o chamou de amigo.
Não autoriza ninguém a se pôr no lugar de quem "sabia o que havia no homem". Em João 2.24-25 quem não se confia é Jesus, e o motivo é um conhecimento que só ele tem. Nenhum pastor ou líder lê o coração dos outros assim: "Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração" Jr 17.10. Usar este texto para decidir quem está "pronto" para Deus e quem não está é tomar o lugar dele.
Não afirma que a amizade com ele se conquiste com anos de serviço. Quem chama é ele, "chamei-vos amigos", e quem escolhe também Jo 15.16. A condição de Jo 15.14 é fazer o que ele manda.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 15 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em