EMET EFATÁ · 16
Jó teme a Deus debalde?
emetefata.com.br
Em Jó 1.9 o acusador pergunta se Jó teme a Deus “debalde”, isto é, por nada. Em Jó 2.3 Deus diz que Jó foi arruinado “sem causa”. No hebraico é a mesma palavra, chinnām: Jó foi ferido por nada e continuou íntegro.Da pregação 86 · Jó Teme a Deus Debalde?
A pergunta é do acusador
O livro de Jó abre com um homem rico e piedoso e, logo depois, com uma conversa que ele nunca ouve. Deus apresenta Jó, e o acusador responde com uma pergunta: "Porventura Jó teme a Deus debalde? Não o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e a tudo quanto tem?... Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face!" Jó 1.9-11. "Debalde" quer dizer de graça, por nada. A suspeita é esta: ninguém ama a Deus por Deus; ama a proteção, e sem ela a fé acaba. No hebraico, o nome vem com artigo, הַשָּׂטָן (haśśāṭān), "o adversário"; a Septuaginta, a tradução grega antiga, escreveu ho diábolos, o acusador. O "protegido de todo lado" é שַׂכְתָּ בַעֲדוֹ (śaktā ba'adô), "cercaste-o", o verbo de quem planta uma sebe em volta. Deus não discute a tese; permite a prova, com um limite: "somente contra ele não estendas a tua mão" Jó 1.12.
Num só dia, quatro notícias
Jó tinha recebido muito: "sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas" Jó 1.3, sete filhos e três filhas. Tudo se vai no mesmo dia, e o texto marca o ritmo com a mesma frase três vezes: "Enquanto este ainda falava, veio outro" Jó 1.16, Jó 1.17, Jó 1.18. Os bois e as jumentas levados pelos sabeus, as ovelhas queimadas pelo fogo que "caiu do céu", os camelos tomados pelos caldeus e, por último, os filhos: "eis que sobrevindo um grande vento de além do deserto, deu nos quatro cantos da casa, e ela caiu sobre os mancebos, de sorte que morreram" Jó 1.19. "Mancebos" (הַנְּעָרִים, hanne'ārîm, os jovens) são aqui os filhos e as filhas do versículo anterior. Cada mensageiro termina igual: "só eu escapei para trazer-te a nova". No hebraico, um verbo atravessa a sequência, נָפַל (nāfal), cair: os sabeus "caíram" sobre os bois (1.15, que a Almeida traduz "deram sobre eles"), o fogo "caiu" do céu (1.16), a casa "caiu" sobre os jovens (1.19), e o "lançando-se em terra" de Jó (1.20) é, de novo, wayyippōl 'arṣāh, "caiu por terra". Tudo caiu sobre ele; ele caiu para adorar.
O manto rasgado vem antes da adoração
"Então Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabeça e, lançando-se em terra, adorou; e disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor" Jó 1.20-21. Rasgar a roupa e raspar a cabeça eram gestos de luto em Israel: "Então Jacó rasgou as suas vestes... e lamentou seu filho por muitos dias" Gn 37.34; "Corta os teus cabelos, Jerusalém, e lança-os fora, e levanta um pranto" Jr 7.29. A dor de Jó está inteira no texto, e a adoração também. "Adorou" é וַיִּשְׁתָּחוּ (wayyištaḥû), prostrar-se com o rosto em terra, e é assim que o filme o desenha. A frase dele tem dois verbos e um só sujeito: יְהוָה נָתַן וַיהוָה לָקָח (YHWH nātan waYHWH lāqāḥ), o Senhor deu, o Senhor tomou. O narrador fecha: "Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma" Jó 1.22.
A mesma palavra, na boca de Deus
No segundo conselho, Deus repete o que tinha dito de Jó e acrescenta: "Ele ainda retém a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa" Jó 2.3. Em português de hoje: Jó foi arruinado sem motivo e continua íntegro. "Sem causa" é חִנָּם (ḥinnām), a mesma palavra do "debalde" de Jó 1.9, que lá vem com a partícula de pergunta, הַחִנָּם (haḥinnām). A Almeida usa duas traduções, "debalde" e "sem causa", e o leitor em português não vê a ligação. O acusador perguntou se Jó amava a Deus por nada; Deus responde que Jó foi ferido por nada e ficou. A resposta à suspeita não é um argumento; é um homem. O léxico de Brown, Driver e Briggs deriva ḥinnām de חֵן (ḥēn), favor, graça: é, ao pé da letra, "de graça", como o nosso "de graça" vem de "graça". A palavra aparece quatro vezes em Jó: na boca do acusador (1.9), na de Deus (2.3), na do próprio Jó, que sem saber da conversa no céu diz "multiplica as minhas chagas sem causa" Jó 9.17, e na de Elifaz, o amigo que insiste em achar nele uma culpa: "Pois sem causa tomaste penhores a teus irmãos" Jó 22.6. O leitor sabe, desde o capítulo 2, o que Jó e os amigos não sabiam.
Odiado sem causa
Na noite em que foi traído, Jesus disse dos que o rejeitavam: "Mas isto é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa" Jo 15.25. Ele cita um salmo. O mais provável é "Aqueles que me odeiam sem causa são mais do que os cabelos da minha cabeça" Sl 69.4, porque João cita esse salmo outras vezes (Jo 2.17; Jo 19.28-29), mas a mesma frase está em Sl 35.19. Nos dois salmos o hebraico é שֹׂנְאַי חִנָּם (śōne'ay ḥinnām): a palavra de Jó 1.9 e 2.3. O grego de João tem dōreán, que é a palavra da Septuaginta nesses salmos e também na pergunta do acusador em Jó 1.9 (em 2.3 a Septuaginta usa outra expressão, dià kenês, em vão). Jó foi ferido por nada e não saiu da presença de Deus (1.20-22); Jesus foi odiado sem causa (Jo 15.25). Ligar os dois pela palavra é verificável; ler Jesus como aquele em quem a resposta ao acusador fica completa é leitura teológica, e o filme a apresenta assim. A mesma palavra grega está no centro do evangelho: "sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" Rm 3.24. O filme termina com a outra ponta da pergunta: "Nós amamos, porque ele nos amou primeiro" 1Jo 4.19.
Vêm do texto: o altar com fumaça, porque Jó "levantando-se de madrugada, oferecia holocaustos" pelos filhos Jó 1.5; a casa do irmão mais velho, onde eles comiam e bebiam Jó 1.13; os bois que "lavravam" Jó 1.14; as ovelhas, o fogo do céu, os camelos e os três bandos Jó 1.16-17; o vento que vem do deserto e dá nos quatro cantos da casa Jó 1.19; um mensageiro de cada lugar, chegando enquanto o outro ainda falava; o manto rasgado, a cabeça rapada e o rosto em terra Jó 1.20. São escolha do desenho: a cerca pontilhada em volta de tudo, que traduz o "protegido de todo lado" de 1.10; a luz no lugar de uma figura para o Senhor; o acusador em cinza, em pé sobre nuvens; o fogo desenhado como raios; Jó sentado numa pedra à porta (o texto diz que ele "se levantou"); as jumentas, que ficaram fora do desenho; o sol que se põe no dia das notícias, a lua e as estrelas; o segundo conselho à noite; o manto que some quando ele se prostra. A última cena não é de Jó: o homem sentado no chão é quem está no chão hoje, e o monte com o madeiro, ao fundo, lembra onde terminou o ódio "sem causa". O gesto de Jesus, que se ajoelha ao lado dele antes de qualquer palavra, é escolha para mostrar 1Jo 4.19: o amor que vem primeiro.
Não afirma que exista um Deus que não dá nada. A pergunta "você amaria a Deus se ele não lhe desse nada?" não tem objeto na Bíblia: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto" Tg 1.17; "Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou... como não nos dará também com ele todas as coisas?" Rm 8.32. Jó tinha recebido tudo (1.3). A prova dele não foi amar um Deus que nunca deu; foi continuar diante dele quando Deus tirou (1.21). E "debalde" descreve o amor, não o fim da história: "o Senhor deu a Jó o dobro do que antes possuía" Jó 42.10, como dádiva, enquanto ele orava pelos amigos.
Não cobra heroísmo de quem está no chão. Jó rasgou o manto antes de adorar; o luto não é falta de fé. O filme não pergunta a quem acabou de perder se amaria a Deus por nada. Mostra onde Jó ficou.
Não afirma que todo sofrimento seja uma prova como a de Jó, nem que seja castigo. O livro nunca explica a Jó a conversa no céu, e Deus diz que os amigos, que procuravam em Jó uma culpa, não falaram dele "o que era reto" Jó 42.7. O filme mostra o que o narrador conta ao leitor, e nada além disso.
Não afirma que Jó seja figura de Cristo. O Novo Testamento não aplica Jó 2.3 a Jesus. A ligação é a palavra ḥinnām no salmo que Jesus aplica a si; a leitura teológica que o filme faz dela é inferência, dita como inferência. Que João 15.25 cite o Salmo 69 e não o 35 é o mais provável, não certo.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
Todas as passagens citadas no estudo, em ordem canônica, com o texto por extenso — 8 livros, 33 versículos. Clique no + para abrir cada livro.
Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 16 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em