EMET EFATÁ 21 · 1 TIMÓTEO 1.12-16 · ATOS 7.58–8.1; 9.1-19
EMET EFATÁ · 21
Alcancei misericórdia
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Paulo escreve duas vezes “alcancei misericórdia” (1Tm 1.13 e 1.16), e no grego é a mesma palavra, na voz passiva: “tiveram misericórdia de mim”. Na primeira vez ele acabou de se chamar “perseguidor”, da mesma raiz do “persegues” que Jesus lhe disse na estrada; na segunda, diz para quê. E entre as duas escreve “sou”, no presente, o principal dos pecadores.Da pregação 14 · Alcancei Misericórdia
O jovem que guardava as capas
Paulo entra na Bíblia com outro nome e sem dizer uma palavra. Estêvão é levado para fora de Jerusalém, e os que vão apedrejá-lo tiram as capas: "e, lançando-o fora da cidade, o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um mancebo chamado Saulo" At 7.58. "Mancebo" é νεανίας (neanías), um jovem; as "vestes" são ἱμάτια (himátia), as capas que se usavam por cima da túnica. Ele não atira pedra nenhuma, e Lucas não o deixa de fora: "E Saulo consentia na sua morte" At 7.60. A Almeida põe essa frase no fim do versículo 60; nas edições gregas ela abre o capítulo 8. "Consentia" é συνευδοκῶν (syneudokōn), aprovar junto. Anos depois, diante de uma multidão em Jerusalém, Paulo conta a mesma cena com o mesmo verbo e acrescenta o detalhe das capas: "eu também estava presente, consentindo na sua morte e guardando as capas dos que o matavam" At 22.20. Estêvão tinha sido acusado de "proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus" At 6.11; o adjetivo é βλάσφημος (blásphēmos). Em 1 Timóteo 1.13, a primeira palavra que Paulo usa para descrever quem ele era é essa mesma: "blasfemador", blásphēmon.
"Por que me persegues?"
O jovem das capas passa a caçar os cristãos: "Saulo porém, assolava a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão" At 8.3. Pede ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco, para trazer presos a Jerusalém os que encontrasse At 9.1-2. Perto de Damasco, ao meio-dia, uma luz do céu o cerca At 9.3; At 22.6; e ele cai: "Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues" At 9.4-5. Saulo prendia homens e mulheres. Jesus não diz "por que persegues os meus"; diz "me persegues". O verbo é διώκω (diṓkō), perseguir, no presente: διώκεις (diṓkeis). E a primeira ordem ao homem no chão não é uma sentença: "mas levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te cumpre fazer" At 9.6.
A mesma raiz atravessa a história. A "grande perseguição" que começa no dia da morte de Estêvão At 8.1 é διωγμός (diōgmós); o verbo de Jesus na estrada é diṓkō; e o "perseguidor" que Paulo escreve de si mesmo em 1 Timóteo 1.13 é διώκτης (diṓktēs), substantivo formado desse verbo. Não é o mesmo lema, é a mesma raiz. E diṓktēs só aparece uma vez no Novo Testamento: aqui. Paulo usa o verbo para o próprio passado também em outras cartas (Gl 1.13; 1Co 15.9; Fp 3.6); em 1 Timóteo ele o transforma em nome: é o que ele era.
"Alcancei misericórdia", duas vezes, na voz passiva
Décadas depois, Paulo escreve a Timóteo: "ainda que outrora eu era blasfemador, perseguidor, e injuriador; mas alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância, na incredulidade" 1Tm 1.13. "Alcancei misericórdia" são três palavras em português e uma só em grego: ἠλεήθην (ēleḗthēn), do verbo eleéō, ter misericórdia, no aoristo da voz passiva, primeira pessoa. Ao pé da letra: "tiveram misericórdia de mim", "fui tratado com misericórdia". O "alcancei" do português soa como conquista; no grego Paulo não é quem faz a ação, é quem a recebe. A Almeida usa a mesma expressão para o mesmo verbo em outros lugares (1Co 7.25; 2Co 4.1), e o leitor em português não tem como ver a passiva.
Três versículos depois, a mesma forma, letra por letra: "mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna" 1Tm 1.16. Na primeira vez, o ēleḗthēn vem seguido de ὅτι (hóti), "porque": a circunstância em que ele recebeu. Na segunda, de ἵνα (hína), "para que": o propósito. O filme mostra as duas lado a lado, sublinhadas.
"Sou", no presente
Entre as duas vezes, a frase que a igreja já repetia: "Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação; que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o principal" 1Tm 1.15. No grego, ὧν πρῶτός εἰμι ἐγώ (hōn prōtós eimi egṓ). "Veio" está no aoristo, ēlthen, um fato acabado; "sou", eimí, está no presente. E dois versículos antes Paulo tinha posto o resto no passado: "outrora eu era", tò próteron ónta, blasfemador, perseguidor e injuriador. Os três nomes ficaram no "outrora"; o "principal" ficou no "sou". πρῶτος (prōtos) é "primeiro": pode ser o primeiro em gravidade ou o primeiro da fila, e o versículo 16 retoma a palavra, "em mim, o principal", en emoì prṓtōi. As duas leituras cabem, e o filme não escolhe entre elas.
"Exemplo" quer dizer esboço
O propósito da segunda vez tem duas palavras que pedem explicação. "Longanimidade" é μακροθυμία (makrothymía), a paciência longa, que demora a se irar e não desiste. E "exemplo" é ὑποτύπωσις (hypotýpōsis), que os léxicos definem como delineamento, esboço, e daí modelo. A palavra só aparece duas vezes no Novo Testamento: aqui e em "Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido" 2Tm 1.13. Paulo diz que a misericórdia feita a ele foi o primeiro traço do desenho, e que os que viessem a crer cabem nele. Por isso o filme termina com Paulo e Jesus na estrada e, atrás deles, figuras em traço pontilhado, ainda em esboço.
Uma observação, que o filme não mostra: na tradução grega do Antigo Testamento que Paulo lia, quando Deus proclama o próprio nome a Moisés, a frase tem eleḗmōn, misericordioso, e makróthymos, longânimo Êx 34.6. São as raízes de "alcancei misericórdia" e de "longanimidade". Que Paulo tivesse Êxodo 34 em mente é possível, e é inferência.
Onde Jesus entra
Em todas as cenas. No apedrejamento, Estêvão "viu a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus" At 7.55, e ora a ele: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" At 7.59. Na estrada, a voz se identifica: "Eu sou Jesus". Na carta, é ele quem veio ao mundo para salvar os pecadores, e é ele o sujeito do verbo que Paulo usa para o propósito: "para que em mim… Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade" 1Tm 1.16. A voz passiva de ēleḗthēn não diz quem teve misericórdia; a frase em volta diz. O parágrafo começa com "Dou graças àquele que me fortaleceu, a Cristo Jesus nosso Senhor" 1Tm 1.12.
Do texto: o apedrejamento fora da cidade, por isso o muro de Jerusalém com a porta At 7.58; as pedras (At 7.58-59), que no filme estão no chão, porque o filme não desenha o apedrejamento; as capas aos pés de Saulo At 7.58; At 22.20; Estêvão olhando para cima e depois de joelhos At 7.55; At 7.60; os céus abertos e Jesus em pé At 7.56; os braços cruzados de Saulo são o desenho escolhido para "consentia". Na estrada: o sol do meio-dia que empalidece diante da luz At 22.6; At 26.13; Damasco no horizonte At 9.3; as cartas do sumo sacerdote na mão dele e depois no chão At 9.2; os dois companheiros que param sem entender At 9.7 (Lucas não diz quantos eram); Jesus de pé diante dele, porque Ananias fala do "Senhor Jesus, que te apareceu no caminho" At 9.17, embora os companheiros não vissem ninguém At 9.7. Saulo levanta a cabeça no fim da cena, para o "levanta-te" de At 9.6.
Escolhas do desenho: a oliveira, as nuvens, a moita e os pássaros que se afastam do apedrejamento; o quarto de Paulo com a lamparina, a janela com a lua, o banco e o rolo no colo (não se sabe onde ele escreveu 1 Timóteo); as palavras de 1.13 escritas no ar do quarto; na cena de 1.15, as capas desenhadas em cinza no chão entre Jesus e Paulo, lembrança de At 22.20, onde Paulo mesmo, anos depois, ainda conta que as guardava; as quatro pessoas atrás dele são "os pecadores" do versículo, e ele está à frente, como "o principal". As figuras pontilhadas do fim são a hypotýpōsis, o esboço, de 1Tm 1.16. O fio em terracota liga "persegues" a "perseguidor"; o traço em terracota sublinha as duas vezes de ēleḗthēn.
Não afirma que a conversão de Saulo tenha sido a resposta à oração de Estêvão. O texto põe as duas coisas lado a lado: "Senhor, não lhes imputes este pecado" e, na frase seguinte, "E Saulo consentia na sua morte" At 7.60. Estêvão ora ao "Senhor Jesus" At 7.59, e é "Jesus" quem se apresenta a Saulo na estrada At 9.5. Mas Lucas não liga uma coisa à outra, e Paulo, quando conta a própria conversão (At 22; At 26; Gl 1; 1Tm 1), não menciona a oração. Ler a misericórdia de 1 Timóteo 1.13 como resposta àquele pedido é inferência. A semelhança da oração de Estêvão com a de Jesus na cruz, "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem" Lc 23.34, é de sentido, não de palavras.
Não afirma que a ignorância desculpe Paulo. "Porque o fiz por ignorância, na incredulidade" 1Tm 1.13 diz em que condição ele recebeu misericórdia; não o declara inocente. Na frase seguinte ele se chama o principal dos pecadores.
Não afirma que "a mesma raiz" seja "a mesma palavra". "Persegues" (diṓkeis) é verbo; "perseguidor" (diṓktēs) é o substantivo formado dele. Que Paulo, ao escolher o substantivo, lembrasse a pergunta da estrada é leitura possível, não frase do texto.
Não afirma que o "sou" de 1.15 seja culpa que não passa. A frase termina em gratidão: "Dou graças àquele que me fortaleceu" 1Tm 1.12, e o parágrafo fecha em louvor 1Tm 1.17.
Não mostra violência. As pedras ficam no chão; Estêvão ora, se inclina e o quadro se apaga, como o texto diz: "Tendo dito isto, adormeceu" At 7.60.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 21 · Elaborado por Eric Rocha
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