EMET EFATÁ 23 · ÊXODO 33.1-3, 12-16
EMET EFATÁ · 23
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Em Êxodo 33.14-15, onde a Almeida diz “eu mesmo irei” e “se tu mesmo não fores”, o hebraico diz “o meu rosto irá” e “se o teu rosto não for”: é a mesma palavra de “face a face” (33.11) e de “não poderás ver a minha face” (33.20).Da pregação 47 · Mais de Ti
A oferta completa, menos quem oferece
Depois do bezerro de ouro, Deus manda Moisés seguir viagem e oferece tudo o que tinha prometido: a terra jurada a Abraão, um anjo à frente, os inimigos expulsos, fartura. E acrescenta uma cláusula: "Vai, sobe daqui… E enviarei um anjo adiante de ti… para uma terra que mana leite e mel; porque eu não subirei no meio de ti, porquanto és povo de cerviz dura; para que não te consuma eu no caminho" Êx 33.1-3. "Cerviz dura" é pescoço duro: gente que não se dobra. O "no meio de ti" é בְּקִרְבְּךָ (beqirbekha), dentro de ti. A razão dada não é descaso: se Deus fosse no meio de um povo assim, o povo seria consumido Êx 33.5. O povo entende o tamanho da perda: "pôs-se a prantear, e nenhum deles vestiu os seus atavios" Êx 33.4, e desde o Horebe ficaram sem os enfeites Êx 33.6. No filme, o anjo segue pela estrada e aponta a terra; o povo leva a mão ao peito, e os colares caem.
A tenda fora do arraial, e o "face a face"
Então Moisés arma uma tenda "fora do arraial, bem longe do arraial" e a chama de tenda da revelação, o lugar do encontro Êx 33.7. Deus não está no meio do acampamento; quem o busca tem de sair. Quando Moisés sai, o povo se levanta e fica à porta de cada tenda olhando; a coluna de nuvem desce e fica à porta da tenda; o povo se prostra, cada um à sua porta Êx 33.8-10. "E falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo" Êx 33.11. "Face a face" é פָּנִים אֶל־פָּנִים (panim el-panim), rosto a rosto. A comparação com o amigo mostra o sentido: é conversa direta, sem intermediário, como em "boca a boca falo com ele" Nm 12.8. Josué, o ajudante, "não se apartava da tenda".
O achado: "eu mesmo" é "o meu rosto"
Deus responde a Moisés: "Eu mesmo irei contigo, e eu te darei descanso" Êx 33.14. E Moisés firma o pedido: "Se tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui" Êx 33.15. Sem Deus, não quer a terra. Onde a Almeida escreve "eu mesmo" e "tu mesmo", o hebraico tem פָּנַי יֵלֵכוּ (panay yelekhu), "o meu rosto irá", e אִם־אֵין פָּנֶיךָ הֹלְכִים (im-ein paneikha holekhim), "se o teu rosto não for". É a palavra פָּנִים (panim), rosto, face: a mesma do "face a face" de 33.11 e a mesma de 33.20, "Não poderás ver a minha face", לֹא תוּכַל לִרְאֹת אֶת־פָּנָי. O capítulo gira em torno dela: o anjo vai "adiante de ti", לְפָנֶיךָ, uma preposição feita com a mesma palavra, "diante do teu rosto" (33.2); Deus fala rosto a rosto (33.11); o rosto de Deus irá (33.14-15); Israel se distingue de todos os povos "sobre a face da terra" (33.16); e o rosto de Deus não pode ser visto (33.20, 33.23). A Almeida não erra ao traduzir "eu mesmo": a mesma expressão, פָּנֶיךָ הֹלְכִים, aparece quando Husai aconselha Absalão "que tu em pessoa vás à peleja" 2Sm 17.11, e a Septuaginta, a tradução grega antiga, já tinha posto autós, "ele mesmo", em 33.14. Mas em português o rosto some do versículo, e com ele some a ligação com o resto do capítulo. O que Moisés pede é a presença do mesmo rosto que falava com ele como um amigo fala com outro.
Face a face, e "não poderás ver a minha face"
Depois de ouvir o sim, Moisés pede mais: "Rogo-te que me mostres a tua glória" Êx 33.18. Deus promete fazer passar diante dele a sua bondade e proclamar o seu nome, e põe um limite: "Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver" Êx 33.20. Moisés ficará numa fenda da penha, coberto pela mão de Deus até a glória passar, e verá as costas: "porém a minha face não se verá" Êx 33.22-23. As duas coisas estão no mesmo capítulo e não se contradizem: "face a face" é falar de perto; ver o rosto é outra coisa, e isso nem Moisés viu. O rosto vai com eles e não pode ser visto. O que o capítulo promete acontece no seguinte, de madrugada, no Sinai: "O Senhor desceu numa nuvem e, pondo-se ali junto a ele, proclamou o nome Jeová" Êx 34.5.
Onde Jesus entra: a glória na face de Cristo
Paulo acabou de falar do rosto de Moisés, que brilhava quando ele descia do monte (2Co 3.7; Êx 34.29-30), e escreve: "Porque Deus, que disse: Das trevas brilhará a luz, é quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo" 2Co 4.6. Isto é: a glória de Deus se dá a conhecer no rosto de Cristo. "Face" é πρόσωπον (prósōpon), a mesma palavra grega que Paulo usa para o rosto de Moisés em 3.7, 3.13 e 3.18, e a mesma com que a Septuaginta traduz o "não poderás ver a minha face" de Êxodo 33.20. Glória e face, o que Moisés pediu para ver e o limite que ouviu, estão juntos numa frase só. Paulo não cita Êxodo 33; que ele tenha o capítulo em vista é inferência, apoiada no contexto de 2 Coríntios 3. João faz a ligação de outro jeito: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós… e vimos a sua glória" Jo 1.14. "Habitou" é ἐσκήνωσεν (eskḗnōsen), do verbo "armar tenda"; três versículos depois vêm Moisés e a frase "Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer" Jo 1.17-18. Ler aí um eco da tenda e da glória de Êxodo 33 é leitura provável, e é leitura. E Jesus disse a Filipe: "Quem me viu a mim, viu o Pai" Jo 14.9.
A presença que não sai
O filme termina com a última frase de Jesus em Mateus: "e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" Mt 28.20. A pregação de onde o filme saiu corrige o próprio texto neste ponto: a ausência que se sente não é ausência real. "Não te deixarei, nem te desampararei" Hb 13.5 não tem cláusula de sentimento. A Bíblia dá palavras a quem sente o contrário, com a mesma palavra rosto: "Até quando esconderás de mim o teu rosto?" Sl 13.1. E Jesus deu o teste do amor, que não é a intensidade da falta: "Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada" Jo 14.23. Moisés, no capítulo seguinte, volta ao pedido com a palavra de 33.3: "vá o Senhor no meio de nós; porque este é povo de dura cerviz" Êx 34.9. "No meio de nós" é בְּקִרְבֵּנוּ (beqirbenu), e a dura cerviz, que em 33.3 era o motivo para Deus não ir, aparece agora no pedido para que ele vá. (A tradução judaica da Sefaria lê ali "ainda que"; o hebraico tem o mesmo כִּי de 33.3.)
Vêm do texto: o monte Horebe atrás do arraial e os enfeites tirados Êx 33.4-6; a tenda armada bem longe do arraial, o povo de pé à porta das tendas e depois prostrado, a coluna de nuvem que desce e fica à porta, Josué junto da tenda Êx 33.7-11; a fenda da penha e a mão que cobre Êx 33.21-23; as duas tábuas de pedra que Moisés levou ao subir de madrugada Êx 34.4; a nuvem em que o Senhor desceu Êx 34.5; a luz que brilha das trevas 2Co 4.6. São escolhas do desenho: o bode, a videira e a colmeia para "leite e mel" (o texto não diz de onde vêm o leite e o mel); o anjo em cinza tracejado, sem forma definida; o pôr do sol e as estrelas na cena da tenda; os arcos que mostram quem fala; a mão desenhada como sombra hachurada sobre a fenda (o texto fala em mão; o desenho não quis dar a Deus um corpo); os raios em volta da nuvem que passa; a casa, a oliveira e o sol que nasce na cena de Cristo; e, no fim, Jesus andando no meio de um grupo pela estrada. Mateus 28.20 foi dito num monte da Galileia Mt 28.16, não numa estrada; pôr Jesus "no meio" deles é o desenho respondendo ao "não subirei no meio de ti" de 33.3.
Não afirma que a Almeida traduz mal. Com o verbo "ir", panim é um modo hebraico de dizer "em pessoa" (2Sm 17.11), e "eu mesmo" é tradução correta. O achado é que a palavra, em hebraico, é rosto, e que o capítulo a usa do começo ao fim.
Não afirma que Moisés viu o rosto de Deus. "Face a face" (Êx 33.11; Dt 34.10) descreve a conversa direta; o mesmo capítulo diz que o rosto não pode ser visto Êx 33.20.
Não afirma que o anjo de 33.2 seja Cristo, nem que Paulo ou João citem Êxodo 33. A ligação de 2Co 4.6 e de Jo 1.14-18 com o capítulo é de vocabulário (glória, face, tenda) e de contexto; lê-la como eco intencional é inferência.
Não afirma que Deus se ausente de quem é dele quando a pessoa não sente nada, nem que a intensidade da saudade meça o amor. A promessa de Mt 28.20 e Hb 13.5 não depende de sentimento, e o teste que Jesus deu é guardar a palavra Jo 14.23. O Salmo 13 pergunta pelo rosto escondido sem que o salmista seja repreendido; nem toda secura é castigo.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. Fora dele, a terracota aparece só nas ligações da tela do achado, entre as quatro vezes da palavra panim.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 23 · Elaborado por Eric Rocha
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