EMET EFATÁ 24 · 1 SAMUEL 15.11, 29, 35
EMET EFATÁ · 24
Não é homem para que se arrependa
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Em 1 Samuel 15 o mesmo verbo hebraico, nacham, diz que Deus se arrependeu de ter feito Saul rei (versículos 11 e 35) e que ele não se arrepende, porque não é homem (versículo 29). As duas frases estão no mesmo capítulo, sobre o mesmo rei. E o “não se arrependerá” do juramento que Hebreus aplica a Jesus (Salmo 110.4; Hebreus 7.21) é, no hebraico, a mesma forma do versículo 29.Da pregação 53 · Deus Não É o Que Eu Sinto
Uma noite inteira
Saul tinha recebido uma ordem clara sobre Amaleque e não a cumpriu: "Saul e o povo pouparam a Agague, como também ao melhor das ovelhas, dos bois... e não os quiseram destruir totalmente" 1Sm 15.9. Então Deus fala a Samuel: "Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras. Então Samuel se contristou, e clamou ao Senhor a noite toda" 1Sm 15.11. Em português de hoje: Deus lamenta ter feito Saul rei, porque Saul deixou de segui-lo; e Samuel passa a noite clamando. No hebraico, "deixou de me seguir" é שָׁב מֵאַחֲרַי (šāḇ mē'aḥăray), "voltou-se de trás de mim": quem mudou de caminho foi Saul. O "se contristou" traduz וַיִּחַר לִשְׁמוּאֵל (wayyiḥar lišmû'ēl), um verbo que costuma significar inflamar-se, arder por dentro; o texto não diz contra quem. E "clamou" é וַיִּזְעַק (wayyiz'aq), o grito de quem pede socorro. O texto não diz o que Samuel pediu. De manhã, ele "madrugou para encontrar-se com Saul" 1Sm 15.12.
A voz das ovelhas e a voz do Senhor
Em Gilgal, Saul recebe Samuel dizendo que já cumpriu a palavra do Senhor (1Sm 15.13). Samuel responde com o que está ouvindo: "Que quer dizer, pois, este balido de ovelhas que chega aos meus ouvidos, e o mugido de bois que ouço?" 1Sm 15.14. No hebraico, o "balido" é קוֹל הַצֹּאן (qôl haṣṣō'n), "a voz das ovelhas". A mesma palavra, qôl, voz, atravessa a conversa: "Por que, pois, não deste ouvidos à voz do Senhor?" 1Sm 15.19; "Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros" 1Sm 15.22, onde "obedecer" é, ao pé da letra, "ouvir", e o versículo começa perguntando se Deus tem tanto prazer em sacrifícios "como em que se obedeça à voz do Senhor"; e a confissão de Saul: "temi ao povo, e dei ouvidos a sua voz" 1Sm 15.24. Saul ouviu a voz do povo, e o gado poupado denunciou isso com a própria voz. O versículo 23 fecha o espelho com um só verbo, מָאַס (mā'as), rejeitar: "Porquanto rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou, a ti, para que não sejas rei" 1Sm 15.23.
A capa rasgada
"E, virando-se Samuel para se ir, Saul pegou-lhe pela orla da capa, a qual se rasgou. Então Samuel lhe disse: O Senhor rasgou de ti hoje o reino de Israel, e o deu a um teu próximo, que é melhor do que tu" 1Sm 15.27-28. "Se rasgou" e "rasgou" são o mesmo verbo, קָרַע (qāra'): o pano que se rompe na mão de Saul vira a imagem do reino que se rompe. A "capa" é o מְעִיל (me'îl), a veste de Samuel desde menino (a "túnica pequena" que a mãe lhe fazia todo ano, 1Sm 2.19, é um me'îl), e é pela capa que Saul o reconhece anos depois (1Sm 28.14). É logo aqui, com o reino rasgado, que Samuel diz: "Também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende, por quanto não é homem para que se arrependa" 1Sm 15.29. Em português de hoje: Deus não mente nem volta atrás no que acabou de dizer, como um homem faria. "A Força de Israel" é נֵצַח יִשְׂרָאֵל (nēṣaḥ yiśrā'ēl), um título de Deus; o léxico de Brown, Driver e Briggs lê aqui "a Eminência de Israel", e a mesma palavra, em outros lugares, quer dizer perpetuidade, "para sempre".
O mesmo verbo nos versículos 11, 29 e 35
O capítulo termina assim: "Ora, Samuel nunca mais viu a Saul até o dia da sua morte, mas Samuel teve dó de Saul. E o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel" 1Sm 15.35. No hebraico, as três frases usam o mesmo verbo, נָחַם (nāḥam), no mesmo tronco (o nifal), em formas diferentes: נִחַמְתִּי (niḥamtî), "arrependo-me", na boca de Deus (15.11); וְלֹא יִנָּחֵם (wəlō' yinnāḥēm), "e não se arrepende", e לְהִנָּחֵם (ləhinnāḥēm), "para que se arrependa", na boca de Samuel (15.29, duas vezes no mesmo versículo); נִחָם (niḥām), "se arrependeu", na voz do narrador (15.35). Duas vezes Deus se arrepende; no meio, Deus não se arrepende. Mesmo capítulo, mesmo rei. O léxico dá ao verbo, nesse tronco, sentidos que vão de "sentir pesar, arrepender-se" a "compadecer-se" e "consolar-se". O narrador deixa as duas linguagens lado a lado e não explica como se encaixam. O que o próprio capítulo mostra é o contexto de cada uma: em 15.11 e 15.35, Deus lamenta ter feito rei um homem que se voltou para trás; em 15.29, o que não será desfeito é a sentença que Samuel acabou de dar, o reino rasgado, mesmo com Saul pedindo que ele voltasse (1Sm 15.25-26). O mesmo verbo descreve Deus respondendo ao que um povo faz: "e se aquela nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que intentava fazer-lhe" Jr 18.8. Ler as duas frases como "o caráter de Deus não muda, e por isso a relação muda quando o homem muda" é a leitura da pregação de onde este filme saiu, e é leitura teológica, não algo que o capítulo diga com essas palavras.
"Deus e não homem", em Oseias
Quem usa "Deus não é homem" para dizer que Deus não sente nada precisa ler Oseias: "Como te deixaria, ó Efraim?... Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem. Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti" Os 11.8-9. Em português de hoje: Deus diz que o coração dele se revira, que a compaixão dele se inflama, e que não vai destruir, justamente porque é Deus e não homem. "As minhas compaixões" é נִחוּמָי (niḥûmāy), um substantivo da mesma raiz de nāḥam. E o motivo é כִּי אֵל אָנֹכִי וְלֹא־אִישׁ (kî 'ēl 'ānōḵî wəlō' 'îš), "porque eu sou Deus e não homem". As palavras para "homem" não são as mesmas (1 Samuel 15.29 usa 'āḏām, Oseias usa 'îš, e Nm 23.19 usa as duas), mas a ideia é a mesma, e em Oseias ela é a razão da compaixão, não da distância. Malaquias diz algo parecido com outro verbo: "Pois eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos" Ml 3.6.
"Jurou o Senhor, e não se arrependerá"
A forma de 1 Samuel 15.29 aparece de novo num salmo: "Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" Sl 110.4. No hebraico, "e não se arrependerá" é וְלֹא יִנָּחֵם (wəlō' yinnāḥēm), com as mesmas letras e as mesmas vogais de 1 Samuel 15.29; a Almeida põe um verbo no presente e o outro no futuro, mas a forma hebraica é uma só. Hebreus aplica esse juramento a Jesus: "mas este com juramento daquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre" Hb 7.21. E tira a consequência: "mas este, porque permanece para sempre, tem o seu sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para interceder por eles" Hb 7.24-25. "Interceder" é falar a Deus a favor de alguém. O capítulo de Saul termina com um rei de quem Deus "se arrependeu"; o Salmo e Hebreus falam de um sacerdote a quem Deus jurou "e não se arrependerá". Ligar as duas frases pela forma hebraica é verificável; ler Jesus como a resposta ao rei rejeitado de 1 Samuel 15 é leitura teológica, e o filme a apresenta assim.
Vêm do texto: a palavra que chega a Samuel (1Sm 15.10); a noite inteira de clamor, que o filme conta com a lua atravessando o céu, e a madrugada (1Sm 15.11-12); Gilgal, onde o povo queria sacrificar o gado (1Sm 15.21); as ovelhas e os bois de Amaleque, com o balido e o mugido que Samuel ouve (1Sm 15.14-15); Samuel que se vira para ir, a orla da capa que Saul segura e o pano que se rasga (1Sm 15.27); os dois que vão para lados opostos, Samuel para Ramá e Saul para Gibeá (1Sm 15.34). São escolha do desenho: a luz no lugar de uma figura para o Senhor; Samuel de joelhos (o texto diz que ele clamou, não em que posição); a casa, a lamparina na janela, as estrelas e a oliveira; o altar de pedras, que o texto não descreve; a coroa de Saul (ele tinha uma, "a coroa que ele tinha na cabeça", 2Sm 1.10, mas o capítulo 15 não fala dela); Samuel apontando para as ovelhas; o olhar para trás, que traduz o "Samuel teve dó de Saul" de 15.35 (no hebraico, hiṯ'abbēl, fez luto por ele). O filme pula os versículos 30 a 33: Samuel ainda volta com Saul para o culto e depois executa Agague; nada disso é desenhado. Na última cena, o homem que se aproxima de Jesus é quem se chega a Deus por ele (Hb 7.25); a mão no ombro e a outra erguida são a maneira do desenho de mostrar "interceder".
Não resolve a tensão entre as duas frases com uma explicação que o capítulo não dá. Mostra que o mesmo verbo está nos versículos 11, 29 e 35, e mostra o contexto de cada um. As palavras da teologia, imutabilidade (Deus não muda em quem ele é) e impassibilidade (Deus não é arrastado por paixões que venham de fora), ajudam a pensar o texto, mas são leitura; o capítulo não as usa.
Não afirma que Deus não sinta. Oseias usa a mesma raiz para a compaixão de Deus e dá como motivo exatamente ser "Deus e não homem" (Os 11.8-9). "Não é homem para que se arrependa" não quer dizer "não se importa".
Não diz o que Samuel pediu naquela noite, nem que o clamor tenha sido inútil: o texto não conta. Também não decide, pelo hebraico, quem segurou a capa: o hebraico diz apenas "segurou a orla da sua capa, e ela se rasgou", sem nomear o sujeito; a Septuaginta, a tradução grega antiga, escreve "Saul", e a Almeida segue essa leitura, que é a mais comum e a que o filme desenha.
Não afirma que o Salmo 110 cite 1 Samuel 15. A forma wəlō' yinnāḥēm é a mesma nos dois; isso é certo. Pôr lado a lado o rei de quem Deus "se arrependeu" e o sacerdote a quem Deus jurou "e não se arrependerá" é aproximação feita pelo filme. A ligação vale no hebraico: no grego, a Septuaginta de 1 Samuel 15.29 usa outro verbo (metanoéō); o de Hebreus 7.21 (metamélomai) é o da Septuaginta no Salmo e também o de 1 Samuel 15.35. Em Oseias 11.8, houve quem propusesse trocar niḥûmāy por uma palavra parecida (raḥămay, "minhas misericórdias"); o léxico registra a proposta, e o filme segue o texto hebraico que temos.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. Samuel não é apresentado como figura de Cristo.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 24 · Elaborado por Eric Rocha
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