EMET EFATÁ · 25
Sou eu
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Quando os vizinhos duvidam que seja ele, o cego curado responde “Sou eu”, que no grego é egṓ eimí, as mesmas duas palavras do “eu sou” de Jesus em João 8.58; no evangelho de João, fora esta vez, só Jesus as diz.Da pregação 58 · Sou Eu
Conhecido pelo lugar onde se sentava
Um homem cego desde que nasceu pedia esmola em Jerusalém. Jesus o vê, passa lodo nos olhos dele e o manda lavar-se num tanque; ele volta enxergando. Quando chega em casa, a vizinhança não o chama pelo nome: "Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto, quando mendigo, perguntavam: Não é este o mesmo que se sentava a mendigar?" Jo 9.8. No grego, a pergunta é οὐχ οὗτός ἐστιν ὁ καθήμενος καὶ προσαιτῶν; (ouch hoûtós estin ho kathḗmenos kaì prosaitō̂n): "não é este o que se senta e pede?". Um artigo só para os dois verbos: para eles, ele era aquilo que fazia, sentado ali. O capítulo inteiro, com 41 versículos, não diz o nome dele. O filme mostra essa lembrança em traço tracejado: o homem sentado, com a mão estendida, no lugar de antes.
"Não é, mas se parece com ele"
O versículo seguinte tem três vozes: "Uns diziam: É ele. E outros: Não é, mas se parece com ele. Ele dizia: Sou eu" Jo 9.9. Os que negavam tiveram de supor outro homem, parecido (ὅμοιος αὐτῷ, hómoios autō̂, "semelhante a ele"), em vez de admitir que o mesmo homem tinha mudado. Os três verbos de dizer estão no imperfeito (élegon, élegen), o tempo que em grego costuma indicar ação que se repete ou continua; a Almeida acompanha com "diziam" e "dizia": a conversa não foi de uma frase só, e ele repetiu a resposta. No filme, o "parecido" aparece tracejado ao lado dele, porque só existe na cabeça de quem duvida.
Sou eu: ἐγώ εἰμι
A resposta dele, "Sou eu", é no grego ἐγώ εἰμι (egṓ eimí): as mesmas duas palavras, na mesma ordem, que Jesus usou um capítulo antes, numa frase que fez os ouvintes pegarem em pedras para atirar nele Jo 8.59: "Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou" Jo 8.58. A Almeida traduz a mesma fórmula às vezes "eu sou" (8.58), às vezes "sou eu" (6.20; 18.6; e aqui, 9.9), e por isso o leitor em português não vê a ligação. No texto grego crítico (SBLGNT), a sequência egṓ eimí aparece 24 vezes no evangelho de João. Em 23 quem fala é Jesus: Jo 4.26, Jo 6.20, os "eu sou o pão" Jo 6.35, "a luz do mundo" Jo 8.12, "a porta" Jo 10.7, "o bom pastor" Jo 10.11, "a ressurreição" Jo 11.25, "o caminho" Jo 14.6, "a videira" Jo 15.1, as frases sem complemento de Jo 8.24, Jo 8.28, Jo 8.58 e Jo 13.19, e o "Sou eu" do Getsêmani, que faz os soldados recuarem e cair Jo 18.6. A única vez em que outra pessoa diz essas duas palavras em João é esta, e ela vem logo depois de 8.58: na fila do filme, o traço em tinta é o 12º, colado ao 11º.
O que isso não prova: na boca do homem, egṓ eimí é fala comum, "sou eu mesmo". Pedro usa a mesma expressão para se apresentar aos enviados de Cornélio, "Sou eu a quem procurais" At 10.21, e os discípulos perguntam "Porventura sou eu, Senhor?" Mt 26.22. Ele não está dizendo que é Deus, e ninguém pega pedras contra ele. As palavras iguais são um fato do texto; que João tenha registrado a resposta dele assim para que o leitor ouça o "eu sou" do capítulo anterior é leitura, a mais provável, porque o evangelho reserva essa fórmula a Jesus em todas as outras 23 vezes.
Siloé, "Enviado"
Jesus "cuspiu no chão e com a saliva fez lodo, e untou com lodo os olhos do cego, e disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa Enviado). E ele foi, lavou-se, e voltou vendo" Jo 9.6-7. João interrompe o relato para traduzir o nome, como faz com "rabi" e "Messias" Jo 1.38 Jo 1.41. Isaías fala das "águas de Siloé, que correm brandamente" Is 8.6, no hebraico מֵי הַשִּׁלֹחַ (mê hashilôach), de shalach, enviar. "Enviado", no grego de João, é ἀπεσταλμένος (apestalménos), do verbo apostéllō, o mesmo que o evangelho usa para dizer que o Pai enviou o Filho: "Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo" Jo 3.17, "Jesus Cristo, aquele que tu enviaste" Jo 17.3. O cego é mandado ao tanque chamado Enviado por aquele que o Pai enviou. João não faz essa ligação por extenso; ela é leitura, apoiada no fato de ele ter parado para traduzir. Uma precisão: em Jo 9.4, "daquele que me enviou" usa outro verbo, pémpō.
"Onde está ele? Não sei"
Perguntam como os olhos se abriram, e ele conta sem enfeite: "O homem que se chama Jesus fez lodo, untou-me os olhos, e disse-me: Vai a Siloé e lava-te. Fui, pois, lavei-me, e fiquei vendo" Jo 9.11. Ele ainda o chama de "o homem que se chama Jesus". O homem sem nome no relato diz o nome de quem o curou. Depois vem a pergunta que ele não sabe responder: "E perguntaram-lhe: Onde está ele? Respondeu: Não sei" Jo 9.12. Ele sabe o que aconteceu e não sabe onde Jesus está. Mais adiante, diante dos fariseus, a resposta tem o mesmo formato: "Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego, e agora vejo" Jo 9.25.
Quem resolve o "não sei" é Jesus. Depois de ser interrogado duas vezes, o homem é posto para fora: "E expulsaram-no" Jo 9.34, a punição que já estava combinada para quem confessasse Jesus, "fosse expulso da sinagoga" Jo 9.22. Então: "Soube Jesus que o haviam expulsado; e achando-o perguntou-lhe: Crês tu no Filho do homem?" Jo 9.35. Ele não achou Jesus; Jesus o achou. E quando pergunta quem é, ouve: "Já o viste, e é ele quem fala contigo" Jo 9.37. No grego, a pergunta dos vizinhos era ποῦ ἐστιν ἐκεῖνος; (poû estin ekeînos, "onde está aquele?") e a resposta de Jesus termina com as mesmas duas palavras, na ordem inversa: ἐκεῖνός ἐστιν (ekeînós estin, "é aquele"). A coincidência de palavras é do texto; o peso que ela tem é leitura.
A mesma pergunta, anos depois, sobre Paulo
Quando Saulo começa a pregar em Damasco, os ouvintes reagem com a mesma construção dos vizinhos: "Não é este o que em Jerusalém perseguia os que invocavam esse nome...?" At 9.21. No grego, οὐχ οὗτός ἐστιν ὁ πορθήσας (ouch hoûtós estin ho porthḗsas): as mesmas quatro primeiras palavras de João 9.8, seguidas daquilo que ele fazia antes. O fim dessa história Paulo conta aos gálatas: as igrejas da Judeia, que não o conheciam de vista, "somente tinham ouvido dizer: Aquele que outrora nos perseguia agora prega a fé que antes procurava destruir; e glorificavam a Deus a respeito de mim" Gl 1.23-24. O passado continua na frase, como contraste, e quem recebe a glória é Deus.
Vêm do texto: Jesus que passa e vê o homem Jo 9.1; os discípulos junto dele Jo 9.2; a saliva no chão, o lodo e os olhos untados Jo 9.6; a ordem, o tanque de Siloé com o nome traduzido, a ida, o lavar e a volta vendo Jo 9.7; os vizinhos e os que o tinham visto mendigar Jo 9.8; as três vozes Jo 9.9; a pergunta sobre onde Jesus está Jo 9.12; a expulsão Jo 9.34 e Jesus que o acha Jo 9.35. Siloé ficava em Jerusalém Ne 3.15 Is 8.6; por isso o muro e o nome da cidade na primeira cena, embora João só diga que Jesus ia "passando". São escolha do desenho: o muro com a porta em arco; a mão estendida, que mostra o mendigo sem precisar de tigela; o braço à frente do cego que anda tateando; os degraus do tanque, o canal por onde chega a água e a mulher com o cântaro na cabeça; o sol que aparece quando ele volta vendo; as casas de teto plano, a escada encostada, o vizinho no telhado, o cântaro, o pano no varal e a oliveira atrás do muro baixo; o tracejado da lembrança e do "parecido"; a fachada da sinagoga e a porta que se fecha, que resumem numa imagem os interrogatórios de Jo 9.13-34, que o filme não mostra; o pôr do sol no encontro. No som: o murmúrio da cidade, a água corrente em Siloé e os respingos quando ele lava o rosto, as portas das casas que se abrem, a porta da sinagoga que bate; o mesmo sino marca os dois sublinhados, "eu sou" e "sou eu".
Não afirma que o homem curado se dizia Deus. Na boca dele, egṓ eimí é o "sou eu mesmo" de qualquer pessoa, como em At 10.21. O que o filme mostra é uma escolha de palavras do evangelho, e a leitura de que João quis o eco com Jo 8.58 é provável, não demonstrável.
Não afirma que o número 24 seja o mesmo em toda edição do Novo Testamento grego. A contagem foi feita no texto crítico (SBLGNT); outra edição pode variar em uma ou outra ocorrência por diferença de manuscritos. Em Jo 8.58 e Jo 9.9 as palavras são as mesmas também no Textus Receptus.
Não afirma que os vizinhos fossem inimigos. O texto os mostra divididos e confusos, não hostis; quem expulsa o homem são as autoridades da sinagoga Jo 9.34. E não trata o "não sei" dele como falha: ele disse o que sabia, e quem o encontrou depois foi Jesus.
Não afirma que Jo 9.3 explique toda doença. Jesus recusou a pergunta dos discípulos sobre de quem era a culpa, naquele caso; não ensinou que todo sofrimento exista para ser curado assim.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 25 · Elaborado por Eric Rocha
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