EMET EFATÁ 29 · JÓ 9.32-35 · 16.19-21 · 1 TIMÓTEO 2.5
EMET EFATÁ · 29
O árbitro que faltava
emetefata.com.br
Jó diz que não há “árbitro” entre ele e Deus (9.33) e depois pede à testemunha no céu que “defenda” a sua causa (16.21): no hebraico, o mesmo verbo. Na tradução grega de Jó, a queixa diz “homem” e “mediador”, e 1 Timóteo 2.5 responde com as duas palavras: “um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”.Da pregação 03 · O Árbitro Que Faltava
Não há ninguém no meio
Jó não diz que Deus é injusto. Diz que não há como levar a causa a um tribunal onde os dois compareçam: "Porque ele não é homem, como eu, para eu lhe responder, para nos encontrarmos em juízo. Não há entre nós árbitro para pôr a mão sobre nós ambos" Jó 9.32-33. Um árbitro é alguém que fica entre as duas partes e tem autoridade sobre as duas; Jó diz que esse alguém não existe. E sabe o que isso custa: "Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror; então falarei, e não o temerei; pois eu não sou assim em mim mesmo" Jó 9.34-35. No hebraico, "homem" é אִישׁ (ʾîš), e "árbitro" é מוֹכִיחַ (môkîaḥ), particípio do verbo יָכַח (yākaḥ): arguir, decidir uma causa, mostrar quem tem razão. O fim do versículo é יָשֵׁת יָדוֹ עַל־שְׁנֵינוּ, "ponha a sua mão sobre nós dois". No filme, Jó fala para cima e as palavras sobem e somem no meio do caminho; ao lado dele aparece o contorno de alguém de pé, com uma mão nele e a outra erguida para a luz, e o contorno some. Não há.
O que não havia na terra, Jó pede ao céu
Sete capítulos depois, Jó fala de outro modo: "Eis que agora mesmo a minha testemunha está no céu, e o meu fiador nas alturas. Os meus amigos zombam de mim; mas os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus, para que ele defenda o direito que o homem tem diante de Deus" Jó 16.19-21. O "defenda" de 16.21 é וְיוֹכַח (wəyôkaḥ), do mesmo verbo yākaḥ do "árbitro" de 9.33. O que Jó disse que não havia, alguém que argumente a causa entre ele e Deus, agora ele pede a quem está no céu. Os dois termos de 16.19 também são de tribunal: עֵד (ʿēd), testemunha, e שָׂהֵד (śāhēd), que a Almeida traduz "fiador", palavra de sabor aramaico, da mesma raiz do nome aramaico que Labão dá ao monte de pedras do testemunho, יְגַר שָׂהֲדוּתָא, Jegar-Saaduta Gn 31.47. No filme, desta vez as palavras chegam até a luz.
Em Jó 19.25, "Pois eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra", a palavra é outra: גֹּאֲלִי (gōʾălî), "o meu gōʾēl", o parente que resgata, o termo de Rute ("que não te deixou hoje sem remidor" Rt 4.14). Não é o verbo yākaḥ. O filme fica com 9.33 e 16.21, onde o verbo se repete.
Na tradução grega, "homem" e "mediador"
O Antigo Testamento foi traduzido para o grego antes de Cristo; essa tradução, a Septuaginta, era a Bíblia de muitos judeus de fala grega e é a que o Novo Testamento cita com frequência. Nela, Jó 9.32-33 diz: οὐ γὰρ εἶ ἄνθρωπος κατ᾽ ἐμέ, "pois não és homem como eu", e εἴθε ἦν ὁ μεσίτης ἡμῶν καὶ ἐλέγχων καὶ διακούων ἀνὰ μέσον ἀμφοτέρων, "oxalá houvesse o nosso mediador, que argumentasse e ouvisse entre os dois". "Homem" é ánthrōpos; "mediador" é mesítēs, o que está no meio. O léxico de Thayer registra mesítēs uma única vez em toda a Septuaginta: aqui, em Jó 9.33.
Paulo escreve: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" 1Tm 2.5. No grego, εἷς καὶ μεσίτης θεοῦ καὶ ἀνθρώπων, ἄνθρωπος Χριστὸς Ἰησοῦς: mesítēs e ánthrōpos, as duas palavras da queixa de Jó na tradução grega. A queixa dizia "não és homem como eu" e "oxalá houvesse um mediador"; 1 Timóteo diz que o mediador existe, e que é homem. Entre o hebraico de Jó e o grego de Paulo não há "a mesma palavra"; a ponte é a tradução grega de Jó, e ali as palavras são as mesmas.
Cristo, homem, no lugar vazio
Jó pedia alguém que tocasse os dois lados. O Novo Testamento descreve Cristo dos dois lados: "convinha que em tudo fosse feito semelhante a seus irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas concernentes a Deus" Hb 2.17, e "não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado" Hb 4.15. No filme, ao amanhecer, o contorno tracejado volta ao lado de Jó, e Jesus entra nele: uma mão no ombro de Jó, a outra erguida, e uma linha terracota da mão dele até a luz. Pôr Jesus no lugar do árbitro de Jó é leitura cristã do livro, feita a partir de 1 Timóteo 2.5; o livro de Jó não diz o nome. No fim, os dois caminham juntos para a luz, com a palavra de Jesus: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" Jo 14.6.
O monte de cinza e o caco vêm do texto: "E Jó, tomando um caco para com ele se raspar, sentou-se no meio da cinza" Jó 2.8; Jó larga o caco quando começa a falar. Os três amigos sentados no chão vêm de "E ficaram sentados com ele na terra sete dias e sete noites" Jó 2.13; o que gesticula no começo é Bildade, porque o capítulo 9 é a resposta de Jó a ele (Jó 8.1, Jó 9.1). As lágrimas vêm de 16.20, "os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus". O resto é escolha do desenho: a noite, a lua, as estrelas e as nuvens; a fumaça fraca que sobe do monturo; a luz sem figura no alto, que marca o lado de Deus (o Senhor não tem figura na Emet Efatá, como no filme 16); os pontos que sobem de Jó, que são as palavras dele; o contorno tracejado, que é a forma do que falta; o amanhecer, o sol que nasce, a oliveira e os pássaros da última cena. O texto hebraico diz "a sua mão" sobre os dois, no singular: a imagem é de autoridade sobre as duas partes. Desenhar uma mão em cada lado é escolha do filme. No som, o vento e os grilos da noite e as brasas baixas do monturo; o caco raspando; um sopro quando o contorno aparece e some; os passos de Jesus quando entra e os dos dois no fim; pássaros ao amanhecer.
Não afirma que Paulo esteja citando Jó. 1 Timóteo 2.5 não traz fórmula de citação, e as palavras mesítēs e ánthrōpos são as mesmas na tradução grega de Jó e em Paulo; isso é certo. Que Paulo tivesse Jó 9 em mente é possível, e não se pode provar. O filme mostra a coincidência das palavras e deixa a ligação como eco.
Não afirma que o hebraico de Jó e o grego de Paulo tenham "a mesma palavra". Môkîaḥ (hebraico) e mesítēs (grego) são palavras de línguas diferentes; a ponte é a Septuaginta. E a Septuaginta muda o tom de 9.33: onde o hebraico nega, "não há entre nós árbitro", o grego deseja, "oxalá houvesse o nosso mediador", como se lesse lû ("oxalá") no lugar de lōʾ ("não"). A explicação da diferença é hipótese; a diferença está nos dois textos.
Não afirma que a testemunha no céu de 16.19 seja Cristo, nem que Jó o conhecesse. Jó não dá nome à testemunha, e quem ela é se discute: o próprio Deus, a quem Jó apela contra o Deus que o fere, ou alguém no céu que fale por ele (o livro fala de "um anjo, um intérprete, um entre mil" Jó 33.23). Por isso, no filme, as palavras de Jó chegam à luz, mas ninguém aparece lá. Também não afirma que Deus não pudesse falar com Jó: ele fala, "Depois disso o Senhor respondeu a Jó dum redemoinho" Jó 38.1. O que faltava era alguém no meio.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. A linha de pontos terracota entre a mão dele e a luz, e o nome Χριστὸς Ἰησοῦς em terracota na tela do achado, são marcas do ponto, não pessoas.
Todas as passagens citadas no estudo, em ordem canônica, com o texto por extenso — 6 livros, 20 versículos. Clique no + para abrir cada livro.
Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 29 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em