EMET EFATÁ 30 · 1 SAMUEL 13.5-14
EMET EFATÁ · 30
Assim me constrangi
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O “me constrangi” com que Saul explica o holocausto de Gilgal (1 Samuel 13.12) é, no hebraico, o verbo de José quando se contém diante dos irmãos (Gênesis 43.31). A Bíblia grega antiga traduz a palavra de Saul por “exerci domínio sobre mim”, da raiz do “domínio próprio” que Paulo põe no fruto do Espírito (Gálatas 5.23).Da pregação 27 · Deus, o Governo É Meu!
Sete dias, até que ele chegasse
Samuel tinha deixado com Saul uma ordem com prazo e com condição: "Tu, porém, descerás adiante de mim a Gilgal, e eis que eu descerei a ter contigo, para oferecer holocaustos e sacrifícios de ofertas pacíficas. Esperarás sete dias, até que eu vá ter contigo e te declare o que hás de fazer" 1Sm 10.8. Em português de hoje: espere uma semana; eu vou chegar, vou oferecer o sacrifício e vou dizer o que você deve fazer. No hebraico, "esperarás" é תּוֹחֵל (tôḥēl), e o fim da espera não é só o sétimo dia: é עַד־בּוֹאִי אֵלֶיךָ ('aḏ-bô'î 'ēleyḵā), "até eu chegar a ti". Em 13.8 o narrador usa o mesmo verbo: "Esperou, pois, sete dias, até o tempo que Samuel determinara; não vindo, porém, Samuel a Gilgal, o povo, deixando a Saul, se dispersava" 1Sm 13.8. Em volta, a pressão que o capítulo descreve: os filisteus acampados em Micmás "com trinta mil carros, seis mil cavaleiros, e povo em multidão como a areia que está à beira do mar" 1Sm 13.5; os homens de Israel escondidos em cavernas e cisternas, alguns atravessando o Jordão, e "todo o povo o seguia tremendo" 1Sm 13.6-7.
O holocausto, e Samuel que chega
"Então disse Saul: Trazei-me aqui um holocausto, e ofertas pacíficas. E ofereceu o holocausto" 1Sm 13.9. O holocausto, עֹלָה ('ōlāh, "o que sobe"), era a oferta queimada inteira no altar. Saul não fez nada profano: fez um ato de culto. E o narrador põe a chegada de Samuel colada ao fim do sacrifício: "Mal tinha ele acabado de oferecer o holocausto, eis que Samuel chegou; e Saul lhe saiu ao encontro, para o saudar" 1Sm 13.10. No hebraico, כְּכַלֹּתוֹ לְהַעֲלוֹת הָעֹלָה וְהִנֵּה שְׁמוּאֵל בָּא (kəḵallōṯô ləha'ălôṯ hā'ōlāh wəhinnēh šəmû'ēl bā'): "quando acabou de fazer subir o holocausto, eis que Samuel veio". O "saudar" é לְבָרְכוֹ (ləḇārəḵô), ao pé da letra "para abençoá-lo".
Três motivos e uma palavra
Samuel pergunta só "Que fizeste?", e Saul responde com o que viu: "Porquanto via que o povo, deixando-me, se dispersava, e que tu não vinhas no tempo determinado, e que os filisteus já se tinham ajuntado em Micmás, eu disse: Agora descerão os filisteus sobre mim a Gilgal, e ainda não aplaquei o Senhor. Assim me constrangi e ofereci o holocausto" 1Sm 13.11-12. Em português de hoje: o povo estava indo embora, você não chegava, o inimigo estava juntando gente; eu ainda não tinha pedido o favor de Deus, então me obriguei a oferecer o sacrifício. São três circunstâncias e um motivo religioso ("aplaquei" é חִלִּיתִי, ḥillîṯî: ao pé da letra, "suavizei a face do Senhor", pedir o favor dele). O atraso vai para a conta de Samuel. E a última palavra, "me constrangi", é וָאֶתְאַפַּק (wā'eṯ'appaq).
O verbo de José
O verbo é אָפַק ('āp̄aq), no tronco reflexivo (o hitpael), e aparece assim sete vezes na Bíblia hebraica. Em seis delas quer dizer segurar-se, conter-se. José, diante dos irmãos que ainda não o reconhecem, sai para chorar sozinho e volta: "Depois lavou o rosto, e saiu; e se conteve e disse: Servi a comida" Gn 43.31, וַיִּתְאַפַּק (wayyiṯ'appaq). Dois capítulos depois, "José não se podia conter" Gn 45.1, e se dá a conhecer. Hamã "se refreou" Et 5.10. Deus diz "estive em silêncio, e me contive" Is 42.14, e o profeta lhe pergunta "Acaso conter-te-ás tu ainda sobre estas calamidades, ó Senhor?" Is 64.12 (ver também Is 63.15). A sétima vez é a de Saul. O léxico de Brown, Driver e Briggs põe o uso de Saul num sentido à parte, "obrigar-se, forçar-se", e os outros seis em "conter-se". O que é certo: é o mesmo verbo, no mesmo tronco, em formas diferentes. Saul descreve o sacrifício como coisa feita contra a própria vontade, com a palavra que o resto da Escritura usa para quem se segura. No filme, a forma de José e a de Saul ficam lado a lado, ligadas por um fio.
Na Bíblia grega: domínio próprio
A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita por judeus antes de Cristo, traduziu o wā'eṯ'appaq de Saul por ἐνεκρατευσάμην (enekrateusámēn), "exerci domínio sobre mim", e o wayyiṯ'appaq de José por ἐνεκρατεύσατο (enekrateúsato): o mesmo verbo grego, enkrateúomai, nos dois. Em Gênesis 45.1 e em Isaías 42.14 os tradutores usaram outros verbos. Da mesma raiz é o substantivo que Paulo põe no fim do fruto do Espírito: "Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei" Gl 5.22-23, onde "domínio próprio" é ἐγκράτεια (enkráteia). E o verbo de Saul na Septuaginta é o mesmo de "todo aquele que luta, exerce domínio próprio em todas as coisas" 1Co 9.25. No filme, a parte comum das três palavras, krat (de krátos, domínio, força), aparece em terracota. O que o hebraico deixa ver, a tradução grega deixa explícito: na boca de Saul, a hora em que ele não esperou recebe o nome de domínio sobre si. E Samuel não discute nenhum dos motivos.
"Procedeste nesciamente"
"Então disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente; não guardaste o mandamento que o Senhor teu Deus te ordenou. O Senhor teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre; agora, porém, não subsistirá o teu reino; já tem o Senhor buscado para si um homem segundo o seu coração" 1Sm 13.13-14. Em português de hoje: você agiu sem juízo; não fez o que Deus mandou; o reino não vai ficar com a sua casa. "Procedeste nesciamente" é uma palavra só, נִסְכָּלְתָּ (niskāltā), agir como tolo. A resposta de Samuel não mede o tamanho do perigo nem a sinceridade do sacrifício: mede a ordem. Depois, "Samuel se levantou, e subiu de Gilgal", e Saul contou os que ficaram, "cerca de seiscentos homens" 1Sm 13.15.
Onde Cristo entra: "não se faça a minha vontade"
Na noite em que foi preso, Jesus "foi para o Monte das Oliveiras; e os discípulos o seguiam" Lc 22.39. Afastou-se deles "cerca de um tiro de pedra; e pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres afasta de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua" Lc 22.41-42. "Cálice" é o sofrimento que vinha; Jesus pede, e deixa a decisão com o Pai. Os discípulos dormiam (Lc 22.45), e uma multidão chegava (Lc 22.47) "com lanternas, archotes e armas" Jo 18.3. Em Mateus ele diz que não lhe faltava poder: "Ou pensas tu que eu não poderia rogar a meu Pai, e que ele não me mandaria agora mesmo mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?" Mt 26.53-54. E logo depois, "todos os discípulos, deixando-o fugiram" Mt 26.56. Hebreus põe na boca de Cristo o Salmo 40: "não te deleitaste em holocaustos e oblações pelo pecado. Então eu disse: Eis-me aqui (no rol do livro está escrito de mim) para fazer, ó Deus, a tua vontade" Hb 10.6-7, e conclui: "É nessa vontade dele que temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre" Hb 10.10. No Salmo 40.6, "holocausto" é 'ôlāh, a mesma palavra de 1 Samuel 13.9. Pôr Gilgal e o monte das Oliveiras lado a lado (os seus que se vão, o inimigo que se junta, e duas respostas) é aproximação do filme; os textos não citam um ao outro. O filme termina com o que Jesus pede a quem o segue: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me" Lc 9.23. A pregação de onde o filme saiu lê esse "cada dia" junto com "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim" Gl 2.20.
Vêm do texto: Gilgal; o acampamento filisteu em Micmás, que cresce enquanto os dias passam (1Sm 13.5, 1Sm 13.11); o povo que se espalha em direções diferentes (1Sm 13.6-8); o holocausto e o fogo; Samuel chegando quando o sacrifício acaba e Saul saindo ao encontro dele (1Sm 13.10); Samuel que vai embora de Gilgal (1Sm 13.15); no monte das Oliveiras, Jesus de joelhos, os discípulos dormindo e a multidão com archotes (Lc 22.39-47, Jo 18.3); na tela do achado, José que chora, se recompõe e se volta para os irmãos (Gn 43.30-31). São escolha do desenho: o sol que atravessa o céu sete vezes e a pedra com sete riscos, para contar os dias; o sol ainda alto quando Samuel chega (o texto não diz a hora); os dois homens que ficam, sinal dos seiscentos (1Sm 13.15); o cordeiro (o texto diz holocausto, sem dizer o animal, e o filme não mostra o abate); a tenda; a lança fincada no chão, que é a de Saul em outros capítulos (1Sm 22.6, 1Sm 26.7) e não aparece no 13; a coroa (2Sm 1.10); a capa de Samuel (a de 1Sm 15.27 e 1Sm 28.14); a mão de Saul no peito quando diz "me constrangi"; as oliveiras, a lua e as estrelas (Lucas diz o monte, não descreve o céu); o homem que segue Jesus ao nascer do sol, que desenha o "siga-me" de Lc 9.23.
Não afirma que a culpa de Saul foi um rei fazer o que era de sacerdote. O texto diz "não guardaste o mandamento" (1Sm 13.13), e o mandamento em vista é o de 10.8: esperar até Samuel chegar. Davi também "ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas perante o Senhor" (2Sm 6.17); se e como um rei podia oferecer é discussão à parte, e o filme segue a acusação que o capítulo faz.
Não afirma que o verbo signifique em Saul exatamente o que significa em José. O que é certo: é o mesmo verbo hebraico, no mesmo tronco, e o léxico dá ao uso de Saul um sentido à parte, "forçar-se". Que Saul tenha vestido a impaciência com a palavra do autodomínio é leitura: é a leitura da pregação, apoiada nos outros seis usos do verbo, na tradução grega e na resposta de Samuel, que deixa os motivos de lado. A Septuaginta é tradução, não o original; mostra como tradutores judeus antigos entenderam a palavra. Paulo não cita 1 Samuel 13 em Gálatas 5.23: a raiz é a mesma, e aproximar as duas passagens é do filme.
Não afirma que Samuel chegou atrasado nem que chegou dentro do prazo. Saul diz "tu não vinhas no tempo determinado"; o narrador diz que Saul esperou sete dias e que Samuel chegou quando o holocausto acabou. A ordem de 10.8 media a espera também pela chegada: "até que eu vá ter contigo". O filme também não conta os carros e cavaleiros de 13.5: as tendas são sinal do acampamento.
Não diz que agir sob pressão, planejar ou decidir seja pecado. O capítulo condena uma ordem que não foi guardada, não a capacidade de decidir.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. Saul, Samuel e José não são apresentados como figuras de Cristo.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 30 · Elaborado por Eric Rocha
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