EMET EFATÁ · 33
Quando orava pelos seus amigos
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Em Jó 22.30, Elifaz disse a Jó, acusando-o, que Deus “livrará até o que não é inocente… pela pureza de tuas mãos”. No fim do livro, Deus manda Elifaz e os outros dois a Jó: “o meu servo Jó orará por vós” (Jó 42.8). Foi Elifaz quem precisou da oração de Jó, e muitos leem aí a ironia do livro.Da pregação 45 · Ainda Me Faltava Perdoar
Duas vezes, as mesmas palavras
O livro de Jó termina com Deus falando aos amigos que passaram trinta capítulos explicando o sofrimento de Jó como castigo. Deus diz a Elifaz: "A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não tendes falado de mim o que era reto, como o meu servo Jó" Jó 42.7. E, no versículo seguinte, repete a frase: "porque vós não tendes falado de mim o que era reto, como o meu servo Jó" Jó 42.8. Em português de hoje: os amigos não falaram o que é certo; Jó falou. No hebraico a oração é idêntica nas duas vezes, כִּי לֹא דִבַּרְתֶּם אֵלַי נְכוֹנָה כְּעַבְדִּי אִיּוֹב (ki lo dibbartem elay nekhonah ke'avdi Iyyov). "O que era reto" é נְכוֹנָה (nekhonah), do verbo de firmar: o que é firme, o que se sustenta. Nos dois versículos Deus diz "o meu servo Jó" quatro vezes, o mesmo título com que o livro começa (Jó 1.8; Jó 2.3).
O perdão deles passa por Jó
Deus não perdoa os três direto. Manda que levem sacrifício e que vão ao homem que eles acusaram: "Tomai, pois, sete novilhos e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei um holocausto por vós; e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa estultícia" Jó 42.8. "Estultícia" é insensatez. "A ele aceitarei" é, no hebraico, פָּנָיו אֶשָּׂא (panav essa), "levantarei o rosto dele", a expressão de quem recebe alguém com favor. Eles foram: "Então foram Elifaz o temanita, e Bildade o suíta, e Zofar o naamatita, e fizeram como o Senhor lhes ordenara; e o Senhor aceitou a Jó" Jó 42.9, de novo "levantou o rosto de Jó". O texto não registra pedido de desculpas nem conversa entre eles: só a ordem e a obediência dos dois lados.
O que Elifaz tinha dito
No último discurso, Elifaz acusa Jó de pecados que ele não cometeu e o chama ao arrependimento com uma promessa: "levantarás o teu rosto para Deus. Tu orarás a ele, e ele te ouvirá" Jó 22.26-27. E fecha: "E livrará até o que não é inocente, que será libertado pela pureza de tuas mãos" Jó 22.30. No hebraico, יְמַלֵּט אִי־נָקִי וְנִמְלַט בְּבֹר כַּפֶּיךָ (yemallet i-naqi venimlat bevor kappekha). O אִי (i) é uma negação rara, a mesma de Icabô, "sem glória" (1Sm 4.21); é assim que a Almeida e Rashi leem: "o que não é inocente". Em português de hoje: Deus salva até o culpado por causa das mãos limpas de um justo. Elifaz dizia isso a Jó como quem fala a um culpado. No capítulo 42, Deus se dirige primeiro a Elifaz (Jó 42.7), e foi Elifaz quem precisou da oração de Jó (Jó 42.8). Muitos leem aí a ironia do livro: o "não inocente" de 22.30 seria o próprio Elifaz. É assim que leem o Comentário do Púlpito, Ellicott e Keil e Delitzsch (ver as Fontes). É leitura, e depende de אִי־נָקִי querer dizer "não inocente"; há quem leia "o inocente". O "levantarás o teu rosto" de 22.26 também volta: são as duas palavras hebraicas, levantar e rosto, do "a ele aceitarei" de 42.8 e do "aceitou a Jó" de 42.9. E bem antes Jó tinha dito de si: "embora não haja violência nas minhas mãos, e seja pura a minha oração" Jó 16.17. "Mãos" ali é כַּפַּי (kappay), a mesma palavra de 22.30, e "oração" é תְּפִלָּה (tefillah), da mesma raiz do "orará" de 42.8.
A virada veio enquanto ele orava
"O Senhor, pois, virou o cativeiro de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu a Jó o dobro do que antes possuía" Jó 42.10. Em português de hoje: Deus mudou a sorte de Jó, e foi enquanto ele orava por eles. "Quando este orava" é בְּהִתְפַּלְלוֹ (behitpalelo), "no seu orar": o mesmo verbo da ordem, יִתְפַּלֵּל (yitpallel), "orará", em 42.8. O texto marca a hora da virada, não uma condição cumprida: não depois que Jó entendeu, não depois que os amigos se retrataram. "Virou o cativeiro" traduz שָׁב אֶת־שְׁבוּת (shav et-shevut), a expressão usada para a volta do exílio: "o Senhor teu Deus te fará voltar do teu cativeiro" Dt 30.3; "Faze regressar os nossos cativos, Senhor" Sl 126.4. Os estudiosos discutem se shevut vem de "voltar" ou de "levar cativo"; por isso umas traduções dizem "virou o cativeiro" e outras "restaurou a sorte". Aplicada a Jó, que não foi levado a lugar nenhum, a expressão descreve a desgraça dele como um exílio que acabou.
As contas do fim
O capítulo 1 dá os números: "Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía ele sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas" Jó 1.2-3. O capítulo 42 dá os de novo: "catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas. Também teve sete filhos e três filhas" Jó 42.12-13. Os quatro rebanhos são o dobro exato. Os filhos, na Almeida e na leitura mais comum, são o mesmo número. Os dez primeiros tinham morrido quando a casa caiu (Jó 1.18-19), e o texto não finge que foram repostos: os parentes vêm e "o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado" Jó 42.11. Consolo supõe ferida que continua. As três filhas do fim ganham nome (Jó 42.14) e herança "entre seus irmãos" Jó 42.15.
O que intercede pelos que o feriram
Em Jó 42.8 o perdão dos três pede duas coisas: um holocausto e a oração do servo. No Calvário, com os que o crucificavam ao pé da cruz, "Jesus, porém, dizia: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem. Então repartiram as vestes dele, deitando sortes sobre elas" Lc 23.34. Ele ora por quem o está ferindo, na hora em que fere. E a oração não parou: "Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós" Rm 8.34. Hebreus junta numa pessoa as duas coisas que em Jó estavam separadas: ele "vive sempre para interceder por eles" Hb 7.25, e o sacrifício "isto fez ele, uma vez por todas, quando se ofereceu a si mesmo" Hb 7.27. O verbo grego de Romanos 8.34 e de Hebreus 7.25 é o mesmo, entynchánō, interceder. Também é verificável que Isaías diz do "meu servo" (Is 52.13) que "pelos transgressores intercedeu" Is 53.12, e que Jesus aplica a si a frase anterior do mesmo versículo, "com os malfeitores foi contado" Lc 22.37. Ler o "meu servo Jó", que ora pelos culpados, como sombra do Servo que intercede pelos transgressores é leitura teológica, e o filme a apresenta assim.
Vêm do texto: o redemoinho de onde o Senhor falou (Jó 38.1; Jó 40.6); Jó no chão, na cinza, porque ele se arrepende "no pó e na cinza" Jó 42.6 e se sentou "no meio da cinza" Jó 2.8; os novilhos e os carneiros (Jó 42.8), que o desenho mostra em seis, numa fila que continua fora do quadro (o texto diz sete e sete); o holocausto com fogo e fumaça; as contas do começo e do fim (Jó 1.2-3; Jó 42.12-13); o lugar chamado Caveira e os dois malfeitores (Lc 23.33), os soldados que repartem as vestes (Lc 23.34) e o povo que olhava (Lc 23.35). São escolha do desenho: a luz no lugar de uma figura para o Senhor; o caco ao lado de Jó, trazido do capítulo 2; os amigos que apontam para ele no começo; a cena de Elifaz à noite; o altar de pedras; a noite que vira dia quando Jó ora; a cinza que some; as dez figuras em cinza, que lembram os filhos que morreram, ao lado das dez do fim; o Calvário como uma elevação, que o texto não descreve. A última cena não é de Jó: são quem foi ferido e quem feriu, hoje, de joelhos diante do mesmo intercessor, com a cruz vazia ao longe.
Não afirma que tudo o que Jó disse foi aprovado. Deus o repreendeu do redemoinho, "Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?" Jó 38.2, e Jó reconheceu: "falei do que não entendia" Jó 42.3. "O que era reto" é o veredito de Deus sobre o que Jó disse, comparado ao que os amigos disseram. O hebraico diz אֵלַי (elay), "a mim", que também pode significar "a meu respeito"; a leitura "Jó falou com Deus, os amigos falaram sobre Deus" é possível, não segura, e o filme não depende dela.
Não afirma que perdoar traga de volta o que se perdeu. Jó 42.10 conta o que aconteceu com Jó; não é promessa para quem perdoa, e muita gente perdoou e não recebeu nada de volta. Também não afirma que perdoar seja voltar a confiar: Jó orou pelos três, e o texto não diz que voltaram a ser seus conselheiros. Nem que o caso de Jó sirva de régua para quem sofreu violência: os amigos foram maus consoladores, não agressores. E a ordem veio de Deus, depois de quarenta e um capítulos, não dos que feriram nem no dia da perda.
Não afirma que Elifaz soubesse o que dizia. A ironia de 22.30 está nas palavras; que o autor a tenha posto ali de propósito é a leitura mais provável, e é leitura. A tradução "o que não é inocente" é a da Almeida e de Rashi; há quem leia "o inocente", e nesse caso a ligação com o capítulo 42 fica mais fraca.
Não esconde uma leitura antiga dos filhos. A palavra de 42.13 para "sete" tem uma forma rara, שִׁבְעָנָה (shiv'anah). O Targum, a tradução aramaica antiga, escreve "catorze filhos", e Rashi explica "duas vezes sete". O filme segue a Almeida e a leitura mais comum, sete; em qualquer leitura as filhas continuam três.
Não afirma que Jó seja figura de Cristo. O Novo Testamento não aplica Jó 42 a Jesus. A primeira metade de Lucas 23.34 falta em alguns manuscritos antigos; o filme a cita como está na Almeida e em quase todas as traduções.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 33 · Elaborado por Eric Rocha
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