EMET EFATÁ 34 · FILIPENSES 4.10-18
EMET EFATÁ · 34
Tudo posso
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O “contentar-me” de Filipenses 4.11 é, no grego, autárkēs, a palavra dos filósofos para quem se basta a si mesmo; dois versículos depois Paulo diz onde está a força: “naquele que me fortalece”. E o “todas as coisas” do 4.13 é a lista do 4.12: fartura e fome.Da pregação 50 · Em Ti Me Contento
Uma carta escrita preso, depois de uma oferta
Paulo escreve aos filipenses preso. Ele fala das "minhas prisões" Fp 1.7 e diz que "se tem tornado manifesto a toda a guarda pretoriana e a todos os demais, que é por Cristo que estou em prisões" Fp 1.13. A igreja de Filipos tinha mandado ajuda por um dos seus, Epafrodito, "vosso enviado para me socorrer nas minhas necessidades" Fp 2.25. O trecho do filme começa aí: "Ora, muito me regozijo no Senhor por terdes finalmente renovado o vosso cuidado para comigo" Fp 4.10. E Paulo acrescenta logo: "Não digo isto por causa de necessidade, porque já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em que me encontre" Fp 4.11. Por isso o filme abre com Epafrodito entrando pela porta com a oferta e Paulo, acorrentado, recebendo-a antes de escrever.
"Contentar-me" é a palavra de quem se basta
O "contentar-me" de 4.11 é, no grego, αὐτάρκης εἶναι (autárkēs eînai), "ser autárkēs". A palavra junta autós, "si mesmo", e arkéō, "bastar": quem se basta a si mesmo. É a única vez que ela aparece no Novo Testamento. O léxico de Thayer a define como "suficiente para si, forte o bastante ou com o bastante para não precisar de ajuda; independente das circunstâncias", e registra também o sentido comum de "contente com o que tem". Era ainda um termo da filosofia moral grega: o ideal do sábio que não depende de nada de fora. Os estoicos, que tiravam o nome do pórtico (stoá) de Atenas onde ensinavam, faziam dele uma meta; comentaristas cristãos notam isso há muito tempo (a compilação do Precept Austin sobre Fp 4.11-13 reúne citações, entre elas a de William Barclay, que contrasta o contentamento do estoico, conquista da própria vontade, com o de Paulo, dado por Cristo). O filme mostra o sábio no pórtico, de braços cruzados, dentro de um círculo que começa e termina nele.
"Todas as coisas" é a lista de antes
O versículo 12 diz o que Paulo aprendeu: "Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade" Fp 4.12. A frase seguinte é a mais citada do capítulo: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece" Fp 4.13. O "todas as coisas" do versículo 13 é πάντα (pánta), a mesma palavra do "em todas as coisas" do versículo 12 (ἐν πᾶσιν, en pâsin), em outra forma. Lidas em sequência, as duas frases dizem: aprendi a viver com muito e com pouco, e dou conta dos dois. O "tudo" do 4.13 tem o tamanho da lista do 4.12: fartura e fome, abundância e falta. Por isso o filme divide a tela entre a mesa farta e a tigela vazia e acende uma e outra, na ordem do versículo.
O "estou experimentado" do mesmo versículo é μεμύημαι (memýēmai), também a única vez no Novo Testamento. O verbo myéō era o de quem é "iniciado nos mistérios", os cultos gregos de segredo, e, em sentido geral, o de quem foi ensinado a fundo. Paulo diz ter sido "iniciado" em passar fome e em ter fartura: aprendeu por dentro, com o tempo, e não num rito.
A força vem de outro, e Paulo diz o nome
"Naquele que me fortalece" é ἐν τῷ ἐνδυναμοῦντί με (en tō endynamoûntí me). O particípio está no presente: aquele que continua me dando força. A palavra de 4.11 dizia "bastar-se a si mesmo"; a frase de 4.13 diz em quem está a força. O versículo não diz o nome, e as edições do grego divergem aqui: o Textus Receptus acrescenta Christō, "em Cristo, que me fortalece"; o texto crítico e a Almeida usada nos filmes trazem só "naquele". Mas Paulo usa o mesmo verbo, endynamóō, com o nome por extenso: "Dou graças àquele que me fortaleceu, a Cristo Jesus nosso Senhor" 1Tm 1.12, em grego τῷ ἐνδυναμώσαντί με Χριστῷ Ἰησοῦ. E na última carta, também preso: "Mas o Senhor esteve ao meu lado e me fortaleceu" 2Tm 4.17, de novo o mesmo verbo. Por isso, no filme, Jesus aparece ao lado de Paulo no versículo 13, e o verbo das duas cartas aparece em cima, com o nome.
Contente, e precisando
Se o parágrafo terminasse no versículo 13, alguém poderia ler Paulo como o sábio que não precisa de ninguém. Ele continua: "Todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição" Fp 4.14. "Tomar parte" é synkoinōnéō, da mesma raiz de "participantes comigo da graça" Fp 1.7. Ele chama o que passa de aflição, lembra que os filipenses o ajudaram "não uma só vez, mas duas" Fp 4.16 e diz: "Mas tenho tudo; tenho-o até em abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus" Fp 4.18. O "tenho tudo" é de novo πάντα, a mesma forma do 4.13, e o "tenho em abundância" é o mesmo verbo do "sei ter abundância" do 4.12 (perisseúō). O homem que diz saber passar falta agradece a ajuda e a chama de oferta a Deus. "Cheiro suave" é a linguagem dos sacrifícios; Paulo usa a mesma expressão para Cristo, que "se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave" Ef 5.2. No filme, Paulo tira o pão da trouxa, olha para Epafrodito, e os fios do "cheiro suave" sobem da oferta.
O filme termina com a resposta que Paulo ouviu do Senhor quando pediu três vezes que o espinho fosse tirado: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" 2Co 12.9. "Basta" é ἀρκεῖ (arkeî), do verbo arkéō, a mesma raiz de autárkēs. Não é a mesma palavra, e o filme não diz que Paulo pensava em 2 Coríntios ao escrever Filipenses; mostra só que o "bastar" que ele conhece vem de fora dele.
Vêm do texto: Paulo preso e a guarda Fp 1.13; Epafrodito chegando com a ajuda dos filipenses Fp 2.25, Fp 4.18; os fios que sobem da oferta, o "cheiro suave" de 4.18; a fartura e a fome de 4.12. São escolha do desenho: o lugar da prisão (se foi em Roma, Éfeso ou Cesareia é discutido, e o desenho não decide); o soldado de capacete sentado num banquinho, com a lança e o escudo; a corrente que vai do pulso de Paulo ao pulso do soldado (em Roma, Lucas diz que Paulo morava "com o soldado que o guardava" At 28.16 e estava "preso com esta cadeia" At 28.20); a tabuinha em que ele escreve; a oferta desenhada como uma trouxa com pão (o texto não diz o que foi mandado); a janela em arco, com o sol que dá lugar à lua; o nicho com a lamparina, que cresce quando o Senhor aparece; o cântaro no canto; Epafrodito sentado no chão; o soldado que cochila no fim. A mesa farta, com pães, peixe, uvas e o anfitrião servindo, e a noite com a pedra, a árvore seca, o vento e a tigela vazia são desenhos da lista de 4.12; o texto não diz onde Paulo passou fome nem onde comeu bem (em 2Co 11.27 ele fala de "fome e sede"). O pórtico com colunas é a stoá que deu nome aos estoicos; o sábio de braços cruzados, os dois ouvintes, os pássaros, o sol e a oliveira são escolha, e o círculo em volta dele é o desenho escolhido para "bastar-se a si mesmo".
Não afirma que Paulo tenha usado o estoicismo, nem que tenha escrito 4.11 para responder aos estoicos. A palavra é a mesma que os filósofos usavam, e o léxico registra também o sentido comum de "contente com o que tem"; Paulo usa a mesma família em outras cartas sem polêmica nenhuma (autárkeia, "suficiência" em 2Co 9.8 e "contentamento" em 1Tm 6.6). O que é certo é o que o texto diz: a palavra de 4.11 fala de bastar-se, e 4.13 diz onde está a força. Ler 4.11-13 como contraste com o ideal filosófico é leitura, antiga e comum, e o filme a mostra como leitura.
Não afirma que "tudo posso" seja promessa de conseguir o que se quer. O versículo recolhe a lista de 4.12: dar conta da fartura e da fome sem se perder em nenhuma. Também não afirma que pedir ajuda seja falta de fé: no mesmo parágrafo Paulo agradece, e em 4.19 diz que Deus suprirá as necessidades dos filipenses.
Não afirma que 4.13 traga o nome de Cristo no grego. Algumas edições trazem, outras não. O nome entra no filme por 1 Timóteo 1.12, onde Paulo usa o mesmo verbo e diz quem é "aquele que me fortaleceu". Que o "naquele" de Filipenses seja Cristo é a leitura mais provável, pelo uso de Paulo, e é leitura.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. As partes do grego em terracota nas telas de texto e os pontos que descem até ele são marcas do achado, não pessoas.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 34 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em