EMET EFATÁ 35 · ISAÍAS 56.3-5 · DEUTERONÔMIO 23.1 · ATOS 8.26-39
EMET EFATÁ · 35
Nem diga: sou árvore seca
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Em Isaías 56.5, Deus promete ao eunuco um nome que “nunca se apagará”; no hebraico, “não será cortado”. É o mesmo verbo, karat, do “cortado” de Deuteronômio 23.1, a lei que o deixava fora da assembleia. Em Atos 8, um eunuco estrangeiro lê Isaías na estrada e Filipe lhe anuncia Jesus.Da pregação 61 · O Legado da Vida
Uma frase que Deus não deixa dizer
Um eunuco era um homem castrado. Não podia ter filhos, e no mundo antigo isso queria dizer que o nome dele acabava com ele. Isaías 56 fala a esse homem e começa proibindo uma frase: "nem tampouco diga o eunuco: Eis que eu sou uma árvore seca" Is 56.3. No hebraico, "eunuco" é סָרִיס (sarîs) e "árvore seca" é עֵץ יָבֵשׁ (ʿēṣ yāvēš): árvore que não dá fruto e não vai dar. O texto não discute se a imagem é justa. Proíbe que ele a diga de si mesmo.
O mesmo versículo proíbe outra frase, a do estrangeiro que se uniu ao Senhor: "Certamente o Senhor me separará do seu povo" Is 56.3. São dois excluídos na mesma frase, o de fora do povo e o sem descendência. Os dois voltam a aparecer juntos, num homem só, em Atos 8 (item 03).
Um nome que não será cortado
Depois da proibição, a promessa: "Dar-lhes-ei na minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará" Is 56.5. Onde a Almeida diz "que nunca se apagará", o hebraico diz אֲשֶׁר לֹא יִכָּרֵת (ʾăšer lōʾ yikkārēt), "que não será cortado". O verbo é כָּרַת (kārat), cortar.
É o mesmo verbo da Lei que deixava esse homem de fora: "Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou for cortado o membro viril, não entrará na assembléia do Senhor" Dt 23.1. "Cortado" ali é כְּרוּת (kərût), particípio de kārat (no texto hebraico, é o versículo 2 do capítulo 23). As formas são diferentes; o verbo é o mesmo. Em português a ligação some, porque um lugar diz "cortado" e o outro "apagará". No hebraico, quem foi cortado e por isso ficava fora da assembleia recebe, dentro da casa de Deus, um nome que não será cortado.
"Memorial e nome" é יָד וָשֵׁם (yād wāšēm), ao pé da letra "uma mão e um nome". Yād, aqui, é um marco de pedra. O mesmo par aparece na história de Absalão, que levantou uma coluna para si porque dizia: "Nenhum filho tenho para conservar a memória o meu nome"; a coluna ficou chamada "o Pilar de Absalão" 2Sm 18.18, no hebraico yad ʾAvšālôm. O homem sem filho levantou o próprio marco. Em Isaías 56, quem dá o marco e o nome ao homem sem filho é Deus, e ele diz que é "melhor do que o de filhos e filhas". A comparação é dele.
Um eunuco lendo Isaías na estrada
Em Atos 8, um anjo manda Filipe para "o caminho que desce de Jerusalém a Gaza, o qual está deserto" At 8.26. Nesse caminho vai "um etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros e tinha ido a Jerusalém para adorar", e agora "regressava e, sentado no seu carro, lia o profeta Isaías" At 8.27-28. Ele é estrangeiro e é eunuco, os dois de Isaías 56.3. A palavra de Lucas, εὐνοῦχος (eunoûchos), é a mesma da tradução grega antiga de Isaías 56.3-4 (a Septuaginta), e Lucas a repete cinco vezes no capítulo: At 8.27, At 8.34, At 8.36, At 8.38 e At 8.39.
O trecho que ele lia é Isaías 53, citado por Lucas na forma grega: "Foi levado como a ovelha ao matadouro, e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim ele não abre a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; quem contará a sua geração? porque a sua vida é tirada da terra" At 8.32-33. "Geração" é γενεά (geneá), palavra que pode significar os contemporâneos ou a descendência; a NIV, em inglês, traduz "quem pode falar dos seus descendentes?". O homem sem filhos lia sobre alguém cuja vida foi tirada e cuja geração ninguém ia contar, e perguntou: "de quem diz isto o profeta? de si mesmo, ou de algum outro?" At 8.34. Isaías 56 está três capítulos adiante no mesmo livro. Um rolo de Isaías costumava trazer o livro inteiro, como o grande rolo de Isaías achado em Qumran; se ele chegou ao capítulo 56, o texto não diz.
Filipe abre a boca e anuncia Jesus
"Então Filipe tomou a palavra e, começando por esta escritura, anunciou-lhe a Jesus" At 8.35. "Tomou a palavra" é, no grego, ἀνοίξας τὸ στόμα (anoíxas tò stóma), "abrindo a boca": o mesmo verbo, anoígō, do versículo que ele acabara de ouvir, em que o cordeiro "não abre a sua boca" At 8.32. Aquele que não abriu a boca diante dos que o tosquiavam é o assunto de quem abre a boca na estrada. E "anunciou" é o verbo da boa notícia: euēngelísato autō̂ tòn Iēsoûn, "evangelizou-lhe Jesus".
Por isso o filme põe Jesus aqui, levado em silêncio entre dois soldados, com ὡς πρόβατον ἐπὶ σφαγὴν ἤχθη ("como ovelha foi levado ao matadouro") acima. O mesmo capítulo de Isaías continua: "quando ele se puser como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade" Is 53.10, no hebraico yirʾeh zeraʿ, "verá descendência". Lucas não cita esse versículo. Ler o homem sem geração de 53.8 ao lado da descendência de 53.10 é leitura de Isaías; não está em Atos.
"Que impede?"
"E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?" At 8.36. "Impede" é κωλύει (kōlýei). A pergunta é dele, e ninguém responde com Deuteronômio: "mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e Filipe o batizou. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco, que jubiloso seguia o seu caminho" At 8.38-39. "Jubiloso" é chaírōn, alegrando-se. Lucas não cita Isaías 56 nem Deuteronômio 23 nesse trecho. Pôr o "que impede?" ao lado da porta fechada de Deuteronômio 23.1 é leitura do filme, e fica marcada aqui como leitura.
A árvore seca vem de Is 56.3; o desenho dela, com o graveto caído, é escolha. O homem da primeira cena é um eunuco qualquer, o de Isaías 56, e não o etíope de Atos; por isso ele não usa o gorro que o etíope usa depois. O muro com ameias, as duas torres e o portão fechado são escolha do desenho para a exclusão de Dt 23.1. A casa que aparece atrás do muro, e depois inteira, com colunas, é a "minha casa" e os "meus muros" de Is 56.5; a forma dela é escolha. A pedra onde ele se senta, de costas para o portão, é escolha. A pedra de pé com o nome gravado em terracota é o yād wāšēm, marco e nome (ver 2Sm 18.18); o formato da pedra é escolha. A oliveira, o sol, as nuvens, os pássaros e as moitas são escolha.
Na estrada, o deserto vem de At 8.26. O sol alto é escolha: a expressão grega de 8.26, katà mesēmbrían, pode ser "para o sul" (como traduz a Almeida) ou "ao meio-dia". O carro é o hárma de At 8.28 e At 8.38; o cavalo não é mencionado e está no desenho porque um carro precisa ser puxado. O gorro do etíope é escolha, para distinguir o oficial da corte. O rolo nas mãos e Filipe correndo até o carro vêm de At 8.28-30; as palavras "estrangeiro e eunuco" acima do carro são a ligação com Is 56.3. A cena de Jesus levado entre dois soldados, com o madeiro ao longe, é o que Filipe anunciou começando por At 8.32; os soldados e o monte vêm dos evangelhos, não de Atos 8. A água à beira do caminho é o "lugar onde havia água" de At 8.36; o texto não diz se era poço, riacho ou tanque. Os dois descem à água e sobem dela At 8.38-39; que o eunuco seja mergulhado inteiro é escolha do desenho. Filipe some depois do batismo At 8.39. O braço erguido no carro é o "jubiloso". As acácias são escolha.
Não afirma que o etíope leu Isaías 56. Lucas diz que ele lia Isaías e cita o capítulo 53. Que o 56 está no mesmo livro, três capítulos adiante, é dado do texto; que ele tenha chegado até lá, ou pensado nisso, é inferência.
Não afirma que Isaías cite Deuteronômio, nem que Isaías 56 revogue a lei de Deuteronômio 23. Deuteronômio 23.1 não usa a palavra "eunuco" (sarîs); descreve a mutilação. A ligação entre os dois textos é pelo verbo kārat. E a promessa de Isaías tem destinatário: os eunucos "que guardam os meus sábados, e escolhem as coisas que me agradam, e abraçam o meu pacto" Is 56.4.
Sarîs, no hebraico, e eunoûchos, no grego, também podiam ser título de oficial da corte: Potifar é chamado sarîs de Faraó e era casado Gn 39.1. Em Isaías 56, a "árvore seca" mostra que o sentido é o físico. Em Atos 8 a maioria lê "eunuco" no sentido literal, e Lucas o usa como nome do homem; mas a palavra ao lado de "mordomo-mor" admite a leitura de título, e o filme não decide isso.
Não afirma o nome do etíope. Atos não o dá. A promessa de Isaías 56.5 é um nome "na minha casa e dentro dos meus muros", diante de Deus; não é fama entre os homens.
Não afirma que não ter filhos seja falta ou castigo, nem que filhos valham pouco. Filhos são "herança da parte do Senhor" Sl 127.3. Jesus não teve filhos; Paulo não teve e escreveu "queria que todos os homens fossem como eu mesmo" 1Co 7.7; Jeremias recebeu ordem de não tê-los Jr 16.2; e Jesus falou dos que "a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus" Mt 19.12. "Melhor do que o de filhos e filhas" não diminui os filhos; diz que o nome que Deus dá não depende deles. A pregação 61 trata disso com mais cuidado, e o filme segue a correção dela.
Uma nota de texto. A Almeida traz o versículo 37 ("é lícito, se crês de todo o coração"), que falta nos manuscritos mais antigos e nas edições críticas. O filme não o usa.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. O nome na pedra, a raiz kārat e o fio que liga as duas palavras, também em terracota, são marcas do ponto, não pessoas.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 35 · Elaborado por Eric Rocha
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