EMET EFATÁ 36 · MATEUS 3.1-17 · 21.31-32
EMET EFATÁ · 36
Temos por pai a Abraão
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No grego, “raça de víboras” é “crias de víboras”, da mesma raiz de “Abraão gerou” (Mateus 1.2): João responde a quem dizia “temos por pai a Abraão” falando de quem os gerou; e, em hebraico, “pedras” e “filhos” (avanim e banim) soam quase igual, um trocadilho provável.Da pregação 63 · A Indignação de João Batista
A frase mais dura foi dita aos religiosos
João batizava no rio Jordão, e gente de toda a região ia até ele: "e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados" Mt 3.6. Entre os que chegavam havia dois grupos que mandavam na religião do povo, os fariseus e os saduceus. É a eles, e não aos pecadores da época, que Mateus diz que João falou: "Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?" Mt 3.7. No filme eles chegam, param na margem e não entram na água. O texto não diz que ficaram de fora; diz que vinham "ao seu batismo". O que Jesus diz depois é que não creram em João Mt 21.32.
"Crias de víboras": a mesma raiz de "Abraão gerou"
A Almeida traduz "raça de víboras". No grego é γεννήματα ἐχιδνῶν (gennḗmata echidnō̂n): gennḗmata é o que foi gerado, a cria, a ninhada. A palavra vem do verbo γεννάω (gennáō), gerar. É o verbo que abre o evangelho de Mateus, repetido nome a nome na genealogia: Ἀβραὰμ ἐγέννησεν τὸν Ἰσαάκ, "Abraão gerou Isaque" Mt 1.2 (a Almeida diz "A Abraão nasceu Isaque"). Não é a mesma palavra; é a mesma raiz: um é o verbo, o outro é o substantivo que sai dele.
Por isso a frase de João não é um xingamento solto. Os religiosos se apoiavam em quem os tinha gerado, e João responde no mesmo assunto: pela conduta, eles pareciam crias de víbora, não de Abraão. Dois versículos depois ele diz isso com todas as letras: "e não queirais dizer dentro de vós mesmos: Temos por pai a Abraão" Mt 3.9. Jesus usa a mesma expressão, gennḗmata echidnō̂n, duas vezes, também para fariseus Mt 12.34 Mt 23.33. E quando os judeus lhe dizem "Nosso pai é Abraão", ele responde pelo mesmo critério de João: "Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão" Jo 8.39.
Pedras e filhos
"…porque eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão" Mt 3.9. "Suscitar" é fazer surgir. João estava num rio de margem pedregosa, e no filme ele tira uma pedra da água e a levanta. O ponto é simples: Deus não depende da linhagem de ninguém para ter filhos de Abraão.
Em hebraico, "pedras" é אֲבָנִים (avanim, como em Js 4.6) e "filhos" é בָּנִים (banim, como em "Filhos sois do Senhor vosso Deus" Dt 14.1). Escritas sem vogais, אבנים e בנים diferem por uma letra, o álef na frente. No aramaico, a língua falada na Judeia, acontece o mesmo: "as pedras" é אַבְנַיָא (avnaya, no Targum de Jônatas a Js 4.21) e "filhos" é בְּנִין (benin, no Targum Onkelos a Gn 3.16). Se João falou em aramaico ou em hebraico, a frase provavelmente tinha um trocadilho: das avanim, banim. A observação é antiga; o comentário de Cambridge para escolas e colégios pergunta "May there not be a play on the words banim (children) abanim (stones)?". Mas Mateus escreveu em grego, e no grego as palavras são λίθων (líthōn) e τέκνα (tékna), que não soam parecido. O trocadilho é provável; não é fato do texto que temos.
O machado já está no chão, junto da raiz
Depois da linhagem, o fruto: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento" Mt 3.8, e logo "Também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo" Lc 3.9. A legenda do filme usa as palavras de Lucas, que registra o mesmo dito de Mt 3.10. "Posto" é κεῖται (keîtai), "jaz", "está deitado": o machado ainda não bateu, mas já está ali, e está na raiz, não nos galhos. Por isso o filme o deixa no chão, com o gume encostado no tronco de uma árvore sem fruto.
Os que creram
Mais tarde, no templo, Jesus fez a conta do ministério de João diante dos principais sacerdotes e anciãos: "Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus" Mt 21.31; "Pois João veio a vós no caminho da justiça… mas os publicanos e as meretrizes lho deram" Mt 21.32. Publicanos eram cobradores de impostos a serviço de Roma, tidos como ladrões; meretrizes eram prostitutas. "Dar crédito" é crer: o verbo é πιστεύω (pisteúō), nas duas metades do versículo, "não crestes nele" e "creram nele". Os que diziam "temos por pai a Abraão" não creram; os que ninguém contava entre os filhos creram. Ler esses publicanos e essas mulheres como as "pedras" de 3.9 é leitura, não está escrito; mas os dois textos falam de João, de arrependimento e de quem entra.
Onde Jesus entra: o Filho
João apontou para longe de si: "Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas" Mt 3.11. "Alparcas" são sandálias. No filme, quando Jesus chega, João aponta para ele e abaixa a cabeça. Então Jesus entra no rio e é batizado, porque "assim nos convém cumprir toda a justiça" Mt 3.15, e o capítulo termina assim: "Batizado que foi Jesus, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito Santo de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele; e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" Mt 3.16-17. "Em quem me comprazo" é "em quem tenho alegria".
O capítulo que começou com uma discussão sobre pai e filhos (quem gerou os religiosos, de quem Deus pode fazer filhos de Abraão) termina com o Pai falando do Filho. A palavra de 3.17 é outra, υἱός (huiós), e não o tékna de 3.9; o eco é de assunto, não de vocabulário. E Mateus já tinha apresentado Jesus, no primeiro versículo do livro, como "filho de Davi, filho de Abraão" Mt 1.1. Paulo liga as pontas: "os que são da fé, esses são filhos de Abraão" Gl 3.7, e "se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão" Gl 3.29. Ler Mateus 3 por essa chave é leitura teológica, e se marca como tal.
Do texto: o rio Jordão Mt 3.6; o deserto da Judeia, nos morros ao longe Mt 3.1; o cinto de couro de João e a veste de pelos de camelo, que o desenho sugere com o cinto na cintura e uns fios no tronco Mt 3.4; o gafanhoto que salta na margem, porque João "alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre" Mt 3.4; o povo que vinha de toda parte Mt 3.5; a pedra, o machado na raiz e a árvore sem fruto Mt 3.9-10; o céu aberto e a pomba Mt 3.16. Os caniços que o vento balança na margem vêm de outra passagem, quando Jesus perguntou ao povo o que tinham ido ver no deserto: "um caniço agitado pelo vento?" Mt 11.7.
Escolhas do desenho: o manto comprido dos fariseus e saduceus e a caixinha na testa, que é o filactério de Mt 23.5 (Mateus 3 não descreve a roupa deles); a víbora que foge pelo chão entre os pés deles na hora do "quem vos ensinou a fugir"; o publicano com a bolsa de moedas e a mulher de véu; João dentro da água até a cintura, o sol, as nuvens e os pássaros. O filme não mostra o modo do batismo: quem é batizado fica na água com a mão de João sobre ele, e sai do rio. Os sons são os do lugar: a correnteza, o vento, o povo na margem, a água mexida em cada batismo e o baque do machado no chão.
Não afirma que o trocadilho entre avanim e banim esteja no texto de Mateus. O evangelho foi escrito em grego, e em grego não há trocadilho. Que João tenha falado em aramaico e jogado com as duas palavras é provável, e só isso. O achado que se pode verificar no texto é o do grego: gennḗmata (3.7) e egénnēsen (1.2) são da mesma raiz.
Não afirma que João tenha apontado para pedras específicas. Há quem pense nas doze pedras que Josué pôs junto do Jordão, sobre as quais os filhos perguntariam aos pais "Que significam estas pedras?" Js 4.21; Bengel sugere isso no Gnomon, com um "talvez". Outros lembram "olhai para a rocha donde fostes cortados… Olhai para Abraão, vosso pai" Is 51.1-2, como o comentário de Jamieson, Fausset e Brown. São ecos possíveis; Mateus não cita nenhum dos dois.
Não afirma que a linhagem de Israel não valha nada, nem que a indignação de João fosse contra o povo judeu. João era judeu, falava a judeus, e o que ele cortou foi a presunção de que o sobrenome substitui o fruto. Os publicanos e as meretrizes também eram descendentes de Abraão; a diferença de Mateus 21.32 é que creram.
Não afirma que os religiosos sejam os únicos alvos do texto. A presunção de "temos por pai" tem tradução para hoje (sou de família crente, estou na igreja desde criança), e a pregação 63 lembra que ela pode morar em quem prega.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. A raiz genn- e o álef em terracota nas telas de texto são marcas do ponto, não pessoas.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 36 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em