EMET EFATÁ 38 · 2 SAMUEL 12.1-13
EMET EFATÁ · 38
Tu és este homem
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Davi ouve o caso da cordeira e sentencia: “digno de morte é o homem que fez isso” (2Sm 12.5). No hebraico, Natã responde com duas palavras, attah ha-ish, “tu, o homem” (12.7): o mesmo “o homem” da sentença. Natã não fez acusação nova; só pôs o nome de Davi na sentença que o próprio Davi tinha dado.Da pregação 68 · Esse Homem És Tu
Um caso contado para um pastor
O profeta Natã chega ao rei Davi e conta um caso, como quem pede uma sentença: dois homens na mesma cidade, um rico com muitos animais e um pobre com uma ovelhinha só. "O Senhor, pois, enviou Natã a Davi" 2Sm 12.1. "O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha" 2Sm 12.2-3. Chega uma visita, e o rico "tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede" 2Sm 12.4. Davi tinha sido pastor e já tinha arrancado um cordeiro da boca de um leão 1Sm 17.34-35; cada detalhe do caso fala a ele. No hebraico, a cordeira é כִּבְשָׂה אַחַת קְטַנָּה (kivsá achat qetanná), "uma cordeira, uma só, pequena". O "regaço" onde ela dormia é חֵיק (cheiq), o colo, o peito. Por isso o filme fica tanto tempo nessa cena: a ovelhinha bebe do copo, a criança chega perto, ela dorme no colo.
O juiz julga certo
Davi não hesita. "Então a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve compaixão" 2Sm 12.5-6. A sentença é exata: o quádruplo é a restituição que a Lei manda para a ovelha roubada, "por uma ovelha quatro ovelhas" Êx 22.1, e a razão é a certa. No hebraico, "não teve compaixão" (לֹא־חָמָל, lo chamal) é o mesmo verbo que o versículo 4 usa para o rico que "não quis tomar" das próprias ovelhas (וַיַּחְמֹל, vayyachmol, "poupou"): ele poupou o que era dele e não poupou o pobre. Davi viu isso com clareza. O "digno de morte" é, ao pé da letra, בֶן־מָוֶת (ben-mavet), "filho de morte".
Duas palavras: "tu, o homem"
A resposta de Natã, que a Almeida traduz "Esse homem és tu!" 2Sm 12.7, tem no hebraico duas palavras: אַתָּה הָאִישׁ (attah ha-ish), "tu, o homem". O título do filme segue essa ordem. A segunda palavra, הָאִישׁ (ha-ish), "o homem", com o artigo, é exatamente a forma da sentença de Davi dois versículos antes: בֶן־מָוֶת הָאִישׁ הָעֹשֶׂה זֹאת, "digno de morte é o homem que fez isso" 2Sm 12.5. Natã não formula acusação nova. A sentença já estava dada, pela boca do rei; ele só diz quem é o réu. A tradução grega antiga (a Septuaginta) entendeu assim e completou a frase de Natã com as palavras de Davi: no versículo 5, ὁ ἀνὴρ ὁ ποιήσας τοῦτο, "o homem que fez isso"; no 7, σὺ εἶ ὁ ἀνὴρ ὁ ποιήσας τοῦτο, "tu és o homem que fez isso". Depois vem a palavra do Senhor, e ela começa pelo que Deus tinha dado: "Eu te ungi rei sobre Israel, livrei-te da mão de Saul, e te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teu seio" 2Sm 12.7-8. Esse "em teu seio" é, no hebraico, a mesma palavra do "regaço" da cordeira, cheiq. E o verbo com que o rico "tomou" a cordeira 2Sm 12.4 é o mesmo de "a sua mulher tomaste para ser tua mulher" 2Sm 12.9 (לָקַח, laqach), e o mesmo que a Almeida verte por "trazê-la" em 2Sm 11.4. O caso não era uma comparação solta; era um retrato.
"Pequei", sem explicação
Davi também responde com duas palavras: חָטָאתִי לַיהוָה (chatati l'Adonai), "Pequei contra o Senhor" 2Sm 12.13. Saul tinha dito a mesma palavra, na mesma forma, chatati, diante de Samuel, e logo acrescentou a razão: "Pequei, porquanto transgredi a ordem do Senhor e as tuas palavras; porque temi ao povo, e dei ouvidos a sua voz" 1Sm 15.24. Pouco depois, de novo: "Pequei; honra-me, porém, agora diante dos anciãos do meu povo" 1Sm 15.30. Davi não explica, não fala do povo, não pede honra, não põe mais ninguém na frase. E a resposta vem na mesma hora: "Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás" 2Sm 12.13. O verbo hebraico do perdão aqui é הֶעֱבִיר (he'evir), "fez passar", "tirou de cima". E o "não morrerás" (לֹא תָמוּת, lo tamut) é da mesma raiz do "digno de morte" (ben-mavet) que o próprio Davi tinha pronunciado. O Salmo 51, que pelo título hebraico é de quando o profeta Natã foi a Davi, diz a mesma coisa com outras palavras: "Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos; de sorte que és justificado em falares, e inculpável em julgares" Sl 51.4. O homem que tinha julgado o rico reconhece quem é o juiz.
Para onde foi a sentença
2 Samuel não explica como Deus pode tirar a sentença de morte de cima de um homem que ele mesmo reconheceu culpado. O Novo Testamento volta a Davi justamente nesse ponto. Paulo cita o Salmo 51 quando fala da justiça de Deus Rm 3.4; diz que Deus, "na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos", mostrou a sua justiça em Cristo Jesus, "para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus" Rm 3.25-26; e logo chama Davi como testemunha: "assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputará o pecado" Rm 4.6-8. Pedro diz em uma linha o que isso custou: "Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus" 1Pe 3.18. Ler o "não morrerás" de Natã à luz de Romanos 3 e de 1 Pedro 3 é leitura teológica, feita com o que os apóstolos escreveram; o texto de Samuel, sozinho, não diz isso.
Do texto: Natã que entra para falar com o rei 2Sm 12.1; no caso, a casa pequena do pobre e os filhos com quem a cordeira cresceu, o pão (o "bocado") e o copo, o colo; o rico com rebanhos e bois ("manadas"); a visita que chega de viagem e a cordeira levada para ser preparada 2Sm 12.2-4. O filme não mostra a cordeira sendo morta: o rico entra em casa com ela no colo, e a fumaça sobe atrás do telhado. Escolhas do desenho: o letreiro "o caso que Natã contou", o sol, as nuvens, os pássaros e a oliveira do caso; no palácio, a coluna, a janela com grade, a lamparina no candelabro, o trono e a harpa encostada (Davi tocava harpa, 1Sm 16.23, mas o capítulo 12 não fala dela); a coroa na cabeça de Davi, que ele tira e põe no chão quando se ajoelha (o texto não diz que ele se ajoelhou nem que tirou a coroa). Davi aponta para fora, pela janela, enquanto sentencia; quando Natã aponta para ele, a mão de Davi vai ao próprio peito. Na última cena, de madrugada, Jesus estende a mão e Davi se levanta: não é cena histórica, é o desenho do "para levar-nos a Deus" 1Pe 3.18. O madeiro, pequeno, no monte ao fundo, lembra onde isso aconteceu.
Não afirma que Davi não enxergava o pecado. Ele enxergou com precisão, com ira justa e a lei certa. O que falhou foi a direção: "tu que julgas, praticas o mesmo" Rm 2.1. E não autoriza ninguém a usar "esse homem és tu" como dedo apontado para o outro: Natã foi enviado 2Sm 12.1, falou em particular (a exposição pública, Deus a reservou para si, 2Sm 12.12) e anunciou o perdão na mesma conversa.
Não afirma que uma confissão curta seja melhor que uma longa. O Salmo 51 é longo. A diferença entre Davi e Saul, no texto, não é o tamanho: é o "porque temi ao povo" e o "honra-me" que vieram depois do "pequei" de Saul.
Não afirma que o perdão apagou as consequências. No mesmo diálogo, Natã anuncia que a espada não se apartaria da casa de Davi e que o filho nascido morreria 2Sm 12.10-14. O perdão veio na mesma frase; as consequências ficaram.
Não afirma que a cordeira do caso seja figura de Cristo, nem que o caso seja uma equação em que cada detalhe corresponde a uma pessoa. É um retrato do que Davi fez, e o próprio Natã o aplica: "tomaste" 2Sm 12.9. Que o "não morrerás" aponte para a morte de Cristo é leitura teológica, apoiada em Romanos 3 e 4 e em 1 Pedro 3.18. A ligação entre Romanos 4.8 e 2 Samuel 12.7 pela palavra "homem" existe no grego (anēr nos dois lugares), mas não no hebraico (ish em Samuel, adam no Salmo 32.2), e por isso o filme não a usa.
O traço em terracota é sinal, não retrato: não tem rosto nem aparência. É sempre o mesmo, em todos os filmes da Emet Efatá, e marca onde ele está na cena. Na tela do achado, a terracota marca só a palavra que carrega o ponto, ha-ish.
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Texto da Almeida Revisada Imprensa Bíblica, de domínio público. Os trechos transcritos na NVI ao longo do estudo estão listados abaixo.
Versões citadas: ARA Almeida Revista e Atualizada · ARC Almeida Revista e Corrigida · AA Almeida Revisada Imprensa Bíblica · NVI Nova Versão Internacional.
Emet Efatá 38 · Elaborado por Eric Rocha
Criado em · Última atualização em